Conhece a Lipor? Dentro das instalações existe um trilho ecológico aberto ao público. São 4 km de percurso construídos sobre quatro milhões de toneladas de resíduos.

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Correr sobre quatro milhões de toneladas de resíduos

Correr sobre quatro milhões de toneladas de resíduos

A paisagem é praticamente idílica. O trilho corre ao longo de um rio ainda riacho, com degraus feitos das pedras de antanhos, grandes, há um magnífico moinho parado nos séculos, pássaros. Do outro lado, sobe às alturas quase mais altas da zona envolvente e atira as vistas para lá da cintura suburbana do Porto, quase até ao Douro não estivesse ele escondido atrás da cidade, lá no horizonte, há mesas e bancos de jardins, parques infantis, um minigolfe a meia altitude e, ó alegria, um burro, um cavalo ou dois e uma manada de ovelhas a tratar da manutenção da encosta.

Só olhando para baixo se vislumbra a realidade. No sopé da colina, a arranjada e imensa unidade fabril da Lipor revela ao que vamos: trata-se de percorrer, as vezes que for preciso, um circuito de quatro quilómetros sobre 30 anos de lixo acumulado, mais de quatro milhões de toneladas de resíduos, uma montanha que cresceu, lenta, entre Ermesinde e Gondomar, entre a Formiga e a Linha do Norte, entre o desespero dos vizinhos e o ter que ser, entre um rio Tinto moribundo e entubado para fins de desenvolvimento urbano.

De 1970 a 2000, a colina ganhou 154 metros de altitude em quatro patamares - um relevo que, multiplicado pelas voltas, resulta num belíssimo treino de rampas. Desde então, o aterro foi "devidamente selado e requalificado", explica-nos Rosa Veloso, técnica da Lipor, passou a ter em cima um Parque Aventura para atividades ao ar livre e, desde 16 de setembro deste ano, ganhou o dito trilho. Até 2020, promete transformar-se num marco de preservação da biodiversidade e devolver o rio Tinto à vida e à fruição da população, com ajuda das autarquias locais, da Agência Portuguesa do Ambiente, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte e Universidade Fernando Pessoa.
Tudo isso obrigou à construção de um passadiço e à criação de um caminho de terra, cujos pilaretes e lancis resultam da transformação de 38 toneladas de plástico misto, e à ligação da Lipor ao apeadeiro da Palmilheira-Águas Santas, até para incentivar boas práticas, não só para os funcionários da Lipor, como para quem procura o Parque Aventura, nascido em 2010.

Vítor Coelho, funcionário e corredor amador, juntou o útil ao agradável: aceitou o desafio da Lipor para ajudar a pensar o trilho na perspetiva do atleta e ganhou uma pista de treino à porta do escritório. "O trilho é simples e agradável e consegue juntar duas vertentes da corrida, um pouco de urbano e de natureza", conta-nos o líder dos Pernetas, um grupo de amigos de Gondomar que se junta para esticar as pernas. Ali, corre duas a três vezes por semana e junta os Pernetas aos domingos. Com a vantagem de poder chegar de carro, estacionar no parque da empresa, aberto ao público caminhante e corredor das oito às 20, todos os dias - quem vier de comboio tem dois portões nas entradas das instalações.
Junto a um deles, à sombra de um perfeito bosque em vale, um placard revela o lugar: num corte de terreno, percebem-se as camadas de resíduos. Na base, há restos de sacos de plástico com dezenas de anos. Intactos. Para lá de tentar obviar à trágica realidade do aterro, o trilho pode ser, também, uma lição ambiental, à qual já se associaram o Centro social de Soutelo e a Associação Portuguesa de Transplantados. O primeiro promove ali a sua terceira Run Social para angariar fundos para um centro geriátrico no dia 19 de novembro. E a segunda terá a sua caminhada anual a 29 de outubro.
A experiência? É dura q.b., garantido.

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