Polémica

Investigação revela casos de violência sexual na patinagem francesa "sem paralelo" no mundo

Investigação revela casos de violência sexual na patinagem francesa "sem paralelo" no mundo

Mais de 20 treinadores de patinagem artística em França são suspeitos de crimes de abuso, assédio e violência sexual contra adolescentes durante quase 30 anos. Uma investigação pedida pelo Ministério do Desporto francês sobre a Federação de Patinagem no Gelo revela que "o volume de casos identificados é indicativo de práticas e comportamentos que foram repetidos por gerações de treinadores".

As revelações feitas por algumas antigas patinadoras em fevereiro chegaram como uma bomba ao mundo da patinagem artística francesa. Os casos vieram a público com Hélène Godard, Anne Bruneteauz e Béatrice Dumur através de uma reportagem do jornal desportivo "L'Equipe", em que as antigas atletas acusavam os então treinadores de agressões sexuais quando ainda eram menores. Dias mais tarde, foi a vez de Sarah Abitbol, dez vezes campeã nacional de França em patinagem artística, publicar a sua autobiografia "Um Tão Longo Silêncio", onde contou ter sido abusada sexualmente pelo treinador Gilles Beyer quando tinha 15 anos. No mesmo mês, Roxana Maracineanu, ministra do Desporto francesa, pediu uma investigação à Inspeção-Geral de Educação e Desporto. Os resultados conhecidos esta terça-feira, 4 de agosto, não deixam (quase) ninguém ficar bem na fotografia.

O relatório da investigação entregue a 28 de julho ao Ministério do Desporto sinaliza mais de 20 treinadores: 12 por assédio e agressão sexual, sendo que três destes foram mesmo condenados a penas de prisão. Outros sete casos foram registados como violência sexual e verbal e outros dois processos judiciais não chegaram a ter conclusão porque os treinadores envolvidos já faleceram. O documento vem comprovar que, ao longo de 30 anos, os casos foram encobertos pela Federação Francesa de Patinagem do Gelo, mais propriamente, pelo então presidente Didier Gailhaguet, afastado do cargo a 8 de fevereiro deste ano. O Ministério do Desporto acusa mesmo a federação de não ter protegido as vítimas e de perpetuar um "código de silêncio".

Após a publicação dos resultados do relatório, Didier Gailhaguet reagiu em comunicado através dos seus advogados. Como já tinha feito anteriormente, o então presidente da Federação Francesa de Patinagem no Gelo contestou as acusações. "Todas as iniciativas judiciais adequadas serão tomadas para contestar as conclusões de um relatório manipulado", escrevem.

É também através desta investigação que o governo francês parece tomar consciência dos longos anos de casos de violência sexual neste desporto. O ministério realça que as "práticas e comportamentos reproduzidos (...) atravessaram gerações de treinadores" num "volume de casos sem paralelo a nível internacional".

Há ainda a apontar o "problema real de álcool" que a investigação encontrou entre os treinadores de patinagem, que segundo o Ministério do Desporto, pode indicar também o "consumo precoce" desta substância por jovens atletas. A antiga patinadora Anne Bruneteauz chegou a revelar ao "L'Equipe" que o treinador Michel Lotz, sob o efeito de álcool, prendeu-a numa enfermaria e a terá tentado violar aos 15 anos.

Eleita após a saída de Gailhaguet, Nathalie Péchalat, antiga patinadora e a primeira mulher à frente da Federação de Patinagem no Gelo, revela que não ficou surpreendida com as conclusões da investigação. "Eu sabia (...) que não iria encontrar um mundo onde estivesse tudo bem (...), mas não esperava algo desta magnitude", confessa. Já a Sarah Abitbol, que durante anos não falou sobre os abusos que sofreu durante a adolescência, diz sentir-se "aliviada" com o fim deste silêncio. "Posso dizer que a vergonha mudou de lado. Hoje posso olhar-me ao espelho e ter orgulho de mim. Eu acabei com algo importante", disse em declarações à rádio francesa.

A Procuradoria-Geral de Paris abriu uma investigação no início do ano ao treinador Gilles Beyer, que admitiu ter tido "relações íntimas" e "inadequadas" com Sarah Abitbol. De acordo com o Ministério do Desporto, um treinador de patinagem foi preso em fevereiro e outros cinco foram impedidos de treinar jovens em abril. Algumas investigações continuam interrompidas devido à pandemia da covid-19.

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