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João Pereira: "Ruben Amorim era um palhaço no bom sentido"

João Pereira: "Ruben Amorim era um palhaço no bom sentido"

Antes de assinar pelo Sporting, o internacional português concedeu uma entrevista ao JN, em que, entre outras coisas, deixou bem explícito o sportinguismo.

"Arranha, mata e esfola" é algo associado ao cartão de visita de João Pereira, internacional português que deixou há dias o Trabzonspor, da Turquia. Uma divergência com o técnico levou à rotura e o futuro passa pelo terreno de jogo. "Sinto-me bem e quero jogar mais um ano e meio, pelo menos. Não ia ser um treinador a decidir quando acabo a carreira", explica o antigo jogador do Benfica e Sporting.

Deixa o Trabzonspor, mas quer continuar a jogar. O João Pereira treinador está na gaveta?

Tenho essa vontade, já admiti, mas a vida dá muitas voltas. A carreira de jogador é muito curta e quero desfrutar destes últimos anos. O papel de treinador é outro passo, mas ainda tenho de tirar o curso.

Tem 40 jogos pela seleção nacional. Jogou nas melhores ligas do mundo. Falta algo no currículo?

Falta sim, entristece-me não ter mais títulos. Orgulho-me muito da minha carreira, mas tendo em conta os clubes por onde passei, acho que devia ter mais títulos.

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Para um menino que viveu a infância no Casal Ventoso, ter jogado em dois dos grandes de Portugal e no futebol espanhol, no Valência, é algo especial?

Sem dúvida. Detesto perder, nem a feijões, e foi essa característica que me levou até onde cheguei. Em comparação com outros jogadores, sou baixo, o pé esquerdo não ajuda, jogo aéreo é o que é, por isso tive de me agarrar a algo para dar a volta. Além da qualidade, teve de ser na raça, disputar cada lance como se fosse o último.

Por isso é que tem gravado nas botas "Casal Ventoso" e "Meia Laranja"?

Ui, está bem informado. Sim, nasci na Rua Maria Pia, mesmo em frente ao Casal Ventoso, paredes meias com a Meia Laranja, e se nascesse de novo voltava a escolher o mesmo lugar.

Foi também por ter visto o que viu que queria ser polícia?

Sim, em criança, pensava que queria fazer o que os polícias fazem. Agora, se calhar, não fazem mais porque não os deixam. Os polícias protegem os cidadãos, eram os meus heróis, e por isso queria ser como eles. Queria ser polícia para praticar o bem.

Como vê o facto de alguns políticos atacarem as minorias e os que vivem com o rendimento social de inserção?

Nunca me considerei uma minoria por viver no bairro. Se calhar, fui muito mais feliz que as pessoas que vivem em Cascais ou em zonas chiques. Atenção, nada contra essas pessoas. Convém esclarecer, senão criam um pé de vento.

Votou nas últimas eleições?

Não, não recebi o envelope. Não sei porquê. Há cinco anos votei no atual presidente, não tenho problemas em dizê-lo. Toda a gente devia ir votar, nem que fosse nulo ou branco, mostrando que não está satisfeito com ninguém.

Tem um filho. Compreende que haja prioridade na vacinação dos políticos?

A prioridade é para quem trabalha nos hospitais, os médicos e enfermeiros. Depois, os idosos. Não estou bem por dentro do assunto, mas há tanta coisa errada. Olhe, o Ricardo Salgado, o BES, os milhões que desapareceram e nada lhes acontece. Não sou juiz, nem advogado, mas é uma vergonha o que está a acontecer e as pessoas revoltam-se com coisas simples e com as mais importantes não. O português tem esse lado menos bom de deixar andar.

O fim dos programas com comentadores dos três grandes contribuiu para a pacificação do futebol ou está tudo igual?

Não vejo. Quando estava em Portugal, o que via era adeptos que iam para lá, não para falar de futebol mas sim para defender os clubes e, muitas vezes, levar encomendas que os próprios clubes lhes pediam.

Não sabemos valorizar o nosso produto?

Exatamente. Quando fui para Espanha, vi como eles defendiam o jogador espanhol. Imaginem o que o Ronaldo passou. Ainda por cima, eles eram campeões em tudo, basquetebol, futsal e futebol.

O que sente um jogador quando acaba uma história de amor?

[Sorriso] É complicado, pois passei por muitos sítios e não se consegue construir as mesmas relações em todos os lados. Há uma história de amor com o Trabzonspor, como escrevi no Instagram, devido à forma como fui tratado pelo clube e pela cidade.

Mas a ligação acabou a bem ou nem por isso?

Não, não acabou a bem. Faltavam cinco meses para terminar o contrato e havia outras formas de resolver isto.

São praticamente quatro épocas, num total de 122 jogos e três golos. Esperava estes números quando foi para a Turquia?

Nem pouco mais ao menos. Não conhecia o país e vim pela aventura e, claro, pelo aspeto financeiro. Quando cheguei, assinei por ano e meio e passado um ano estava a renovar. Na época passada, voltei a renovar, mas veio um treinador novo e agora não adianta falar se teve boas ou más opções, justas ou injustas. O ciclo está fechado.

A par do Benfica, onde fez a maior parte da formação, é o clube onde esteve mais tempo.

No Sporting, também estive quatro anos, divididos por duas passagens. Os vizinhos veem despedir-se à nossa porta, está a ser difícil devido às relações que criámos. A minha esposa já viveu em Nova Iorque e Londres e está a sofrer mais que eu.

Até quando vai jogar? Está prestes a completar 37 anos.

A minha ideia é que consigo, facilmente, jogar mais um ano e meio. Sinto-me bem e a prova é que no último jogo que fiz estávamos a perder 1-0 e ainda fomos empatar 1-1. Toda a gente elogiou a minha prestação e a pressão foi muita para o treinador [Abdullah Avci].

Ele sugeriu que fosse para a equipa técnica?

Sim, foi inteligente nesse aspeto, passou essa ideia para os adeptos, mas nunca seria ele a determinar quando acabo a carreira. Ninguém se mete nisso, a única pessoa que podia influenciar era a minha mulher e ela não faz isso e apoia-me a 100%.

"Ruben Amorim era um palhaço no bom sentido"

João Pereira vestiu a camisola dos dois rivais da Segunda Circular, mas não esconde que o coração pertence ao Sporting. Depois de amanhã (a entrevista foi publicada no passado sábado), há dérbi e para João Pereira, que representou Benfica e Sporting, é fácil escolher quem quer que ganhe. O lateral deu-se a conhecer ao mundo da bola no clube da Luz, mas foi em Alvalade que encontrou algo especial.

Sporting-Benfica. Fica de coração dividido ou tem uma preferência?

Isso nem há dúvidas. Sporting, claro, porque quero que os meus amigos ganhem e maior parte deles estão lá.

Havia a ideia que era benfiquista ferrenho, do coração...

Sei que é estranho, porque foi no Benfica que cresci e era o meu clube, mas desde que joguei no Sporting criei uma ligação especial com adeptos, funcionários e diretores. Fui sempre acarinhado.

Chega à seleção a jogar no Sporting.

Sim, e é depois de jogar no Sporting que dou o salto para a liga espanhola, que era a melhor do mundo. Depois, num período difícil, em que fui para o Hannover, da Alemanha, e as coisas não correram bem o Sporting voltou a dar-me a mão e relancei a carreira. Foi no Sporting que fiz grandes amigos, o Miguel Veloso, André Martins, Adrien, Carriço, Pereirinha, André Santos, o Tiago, treinador dos guarda-redes, era um grupo fantástico. Ainda assim, o meu melhor amigo jogou sempre comigo nos escalões jovens do Benfica, o João Godinho, guarda-redes do Mafra.

O Sporting pode ser campeão?

Está em primeiro. No início da época, dei o favoritismo ao campeão, o F. C. Porto, e ao Benfica, mas neste momento...

Ruben Amorim surpreendeu-o?

Joguei com ele nas camadas jovens e na seleção. O que posso dizer é que ele era um palhaço no bom sentido, porque estar ao lado dele era estar a rir. Não terá mudado a personalidade, mas, de certeza, que terá outra bagagem.

E Jorge Jesus?

É o melhor treinador que tive e com quem mais aprendi. Antes de treinares com ele, vês o jogo de uma forma e depois vês o jogo de outra totalmente diferente. É tipo da noite para o dia.

Nunca houve a chance de jogar no F. C. Porto?

Os meus amigos dizem que tinha feitio para jogar lá. Quando saí do Braga para ir para o Sporting, fui abordado pelo F. C. Porto, mas já tinha dado a palavra e não ia voltar atrás. Pouca gente teve conhecimento. Talvez só o presidente do Braga e os responsáveis do F. C. Porto.

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