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Jonas, Slimani e Gabigol. O efeito Jesus nos avançados

Jonas, Slimani e Gabigol. O efeito Jesus nos avançados

O técnico Jorge Jesus deve ser um caso de estudo pela forma como rentabiliza os avançados. Desde o Benfica até ao Flamengo, um lote de jogadores dessa posição apresentaram números de destaque, enquanto orientados pelo português.

O conceito de avançado foi-se alterando ao longo dos anos, de acordo com a evolução do futebol. A função do avançado tradicional era fazer golos e não tinha praticamente outro papel. Nos dias de hoje, já se pede um avançado mais completo, participativo no jogo e colaborador nas tarefas defensivas, o que parece um paradoxo no contexto futebolístico. É certo que mesmo com esta evolução, Jorge Jesus conseguiu ter todos os anos um avançado goleador.

Antes de ir para o Benfica, Jesus teve passagens por vários clubes da Primeira Liga: Felgueiras, Estrela da Amadora, Vitória de Guimarães, Vitória de Setúbal, União de Leiria, Belenenses e Sporting de Braga. Teve goleadores nestas equipas, como Meyong Zé, Lewis ou Hugo Henrique. Desde que assinou pelo Sport Lisboa e Benfica em 2009/2010, não houve uma época em que Jorge Jesus não tivesse um avançado com números assombrosos, e em algumas épocas não era apenas um, visto que o recém-campeão da Libertadores opta regularmente por um esquema tático com dois avançados na frente.

Cardozo - Foi dos poucos que acompanhou todo o percurso de Jorge Jesus no Benfica e o atleta que marcou mais golos na carreira do técnico português. Foram 166 golos em 288 jogos pelas águias. Óscar Cardozo diferenciava-se pelo seu estilo característico, porque assemelhava-se aos pontas-de-lança tradicionais, cuja missão é ser matador, e nisso era irrepreensível.

"Tacuara" - como era chamado pelos adeptos benfiquistas - teve um registo brilhante na primeira época de Jesus nas águias, apontando 38 golos em todas as competições. Foi a melhor época da carreira do paraguaio e terminou também como líder de golos do campeonato português, com 26 golos, assim como da Liga Europa, com nove golos. Em 2010/2011, numa época menos conseguida pelas águias, é o melhor marcador do Benfica com 23 golos. Nas duas épocas seguintes, o Benfica falhou o objetivo de conquistar o campeonato. No entanto, Cardozo terminou como melhor marcador das águias em 2011/2012, com 28 golos, incluindo 20 golos na Liga Portuguesa, que lhe valeram a Bola de Prata (troféu oferecido ao melhor marcador da prova). Em 2012/2013, subiu o registo para 33 tentos, embora ultrapassado por Lima na Liga NOS. Tacuara realizou a última época de águia ao peito no ano seguinte, no entanto, já não era titular. Ainda assim, apontou onze golos.

Quando saiu dos encarnados já tinha 31 anos, com o rendimento a descer, como aconteceu no Olympiacos e no Trabzonspor. Mas em 2018, pelo Libertad, clube atual do paraguaio, marcou um total de 28 golos numa época.

Lima - O brasileiro chegou ao Benfica em 2012, proveniente do Sporting de Braga. Já tinha experiência de Primeira Liga, onde também representou o Belenenses. Com a dedicação, despertou o interesse das águias, que desembolsaram quatro milhões de euros para o garantir, naquela que seria uma das transferências sonantes desse defeso. No total, são 70 golos em 145 partidas ao serviço dos encarnados.

Na primeira temporada apontou 30 golos e 20 deles foram no campeonato, ficando apenas atrás de Jackson Martínez na lista de melhores marcadores. Já em 2013/2014, foi imprescindível na conquista do título, visto que marcou 21 golos, 14 deles no campeonato. O avançado brasileiro terminou como o maior artilheiro do clube, no ano em que Jackson foi novamente o melhor marcador do campeonato. As águias tiveram um ataque bem produtivo nesse ano e Lima "dividiu" os golos com o parceiro da frente de ataque, Rodrigo. 2014/2015 é a última temporada tanto do jogador como do treinador ao serviço do clube. Lima continuou a forma e fez balançar as redes adversárias por 19 vezes, todos eles na Primeira Liga. Nessa época, ficou em terceiro na lista dos marcadores, apenas atrás de Jonas (20) e Jackson (21), maior artilheiro pelo terceiro ano consecutivo.

Lima era um jogador completo e muito esforçado. Tinha um remate forte, um bom cabeceamento e era um avançado pragmático pelo facto de não precisar de muitas oportunidades para faturar. Além disso, era ligado à equipa, visto que em três épocas ao serviço dos lisboetas assistiu os companheiros de equipa por 24 vezes.

Após a passagem pelo Benfica, terminou a carreira no Al Ahli, dos Emirados Árabes Unidos.

Rodrigo - É um conceito mais moderno no que toca a esta matéria de avançados. Rodrigo tanto pode atuar a ponta-de-lança, como a segundo avançado, posição onde se sente mais confortável, por ser um jogador trabalhador, em função do parceiro de ataque.

Esteve emprestado ao Bolton em 2011. Nesse ano, no início da temporada 2011/2012, iniciou a carreira de águia ao peito, faturando por 16 vezes em todas as competições e na época seguinte diminuiu o número para onze tentos. Estes números podem parecer escassos, embora sejam fáceis de interpretar. Rodrigo nestas duas épocas, embora tenha realizado 77 jogos, nem sempre foi titular, devido às opções Lima e Cardozo. Ou seja, na primeira temporada marcou nove golos em 22 jogos na Liga Portuguesa e na segunda faturou sete vezes em apenas 20 jogos. De qualquer das formas, para um avançado com as suas características são números interessantes. Na época 2013/2014, em ano de conquista de campeonato, Cardozo perdeu a titularidade e Rodrigo ganhou espaço para explodir. As exibições continuavam a ser melhores do que as estatísticas, embora tenha anotado 18 golos em 43 jogos realizados. Por outro lado, também apresentou 17 assistências pelo clube, sendo que sete delas foram numa só temporada da primeira divisão portuguesa.

Rodrigo é daqueles casos que potencializou o talento na Luz e rumou a outros palcos. Encontra-se no Valência desde que se transferiu, embora tenha demorado o seu tempo a afirmar-se no Mestalla. Rodrigo só começou a apresentar números consideráveis a partir de 2017.

Jonas - É mais um avançado brasileiro. Chegou no verão de 2014 para substituir Rodrigo e afirmou-se em pouco tempo. Foi treinado por Jorge Jesus apenas uma época e foi o impulso para a quantidade de golos marcados nas restantes pelas águias. Jonas Gonçalves, em 2014/2015, realizou 35 jogos, marcando por 31 vezes, quase uma média de um golo por jogo. Não foi o melhor marcador do campeonato nesse ano por um golo de diferença. Foi com Jorge Jesus que Jonas reencontrou a forma e o Benfica deu-lhe o que precisava.

Quando o técnico português se transferiu para o Sporting, Jonas continuou na Luz e realizou mais quatro épocas de águia ao peito. Os números falam por si... É um total de 137 golos em 183 jogos. Foi também o melhor marcador do campeonato duas vezes e o futebolista do ano do clube outras duas.

Slimani - É talvez o maior exemplo dos avançados desenvolvidos por Jorge Jesus. Chegou ao Sporting CP em 2013, proveniente do CR Belouizdad da Liga Argelina. Antes da entrada do treinador português, Slimani realizou duas épocas ao serviço dos leões, onde somou 63 jogos e marcou 25 golos. O número 9 argelino mostrava qualidade e respondia com golos, até porque nestas duas temporadas dividia o tempo de jogo com Fredy Montero, sendo que a maior parte das vezes era o colombiano que alinhava de início. Ou seja, acabam por ser números positivos, embora tivesse potencial para mais.

É em 2015/2016 que dá o salto, orientado por Jorge Jesus. O mérito dado ao técnico português é o facto de lhe corrigido falhas, especialmente nos domínios, receções e aspetos técnicos e ter rentabilizado o jogador, aproveitando ao máximo as suas qualidades pouco evidenciadas.

Islam Slimani tornou-se numa autêntica máquina de golos nesse ano em que o Sporting lutou pelo título até à última jornada, terminando em 2.º lugar com 86 pontos. João Mário, Adrien Silva, William Carvalho, Bryan Ruiz e Teófilo Gutiérrez eram destaques no plantel dos leões e Slimani surgia como o matador da equipa. Ao todo, foram 31 golos em 46 jogos, sendo que 27 desses foram no campeonato português. Viveu a melhor temporada da carreira até ao momento e só não venceu a Bola de Prata porque houve um "super" Jonas com 32 tentos.

As boas exibições no Sporting valeram-lhe chamadas regulares à seleção argelina. Pelos "Guerreiros do Deserto" disputou 69 partidas, com 29 golos marcados. No final dessa temporada com Jorge Jesus, transferiu-se para o Leicester, recentemente campeão inglês, a troco de 30,5 milhões de euros. Nunca correspondeu às expectativas e está até agora à procura de recuperar a forma, aos 31 anos, no Mónaco, de Leonardo Jardim. As primeiras indicações são positivas, pois em dez jogos leva seis golos e oito assistências.

Bas Dost - Este é possivelmente o jogador com os números mais impressionantes, tendo em conta que numa só época tem mais golos que jogos no campeonato português. Bas Dost aterrou em Lisboa para representar a turma de Alvalade em 2016 e com o estatuto de estrela. O avançado holandês já foi o melhor marcador do campeonato holandês com 37 golos, passou vários anos no campeonato alemão pelo Wolfsburgo, onde marcou uma série de golos e chegou a Portugal com o objetivo de ajudar o Sporting a conquistar troféus.

Na primeira temporada, apesar de o clube ter ficado distanciado do primeiro lugar da tabela classificativa, Bas Dost foi incansável e marcou 36 golos em 41 jogos. No campeonato foram 34 em 30 partidas, o que dá uma média superior a um golo por jogo. Nessa época, o holandês ficou em 2.º lugar na Bota de Ouro (troféu que premeia o melhor marcador da Europa), vencido por Lionel Messi, com mais três tentos. Na época 2017/2018, Dost não quebrou o rendimento e em 49 jogos, balançou as redes por 34 vezes, 27 delas na Liga NOS. Neste ano, perdeu em Portugal para Jonas por sete golos de diferença.

A verdade é que Bas Dost teve os melhores números da carreira com Jorge Jesus, que potencializou as suas qualidades. Era um verdadeiro homem de área que precisava de poucas oportunidades para marcar. A nível de percentagem, era dos melhores da Europa na conversão de ocasiões flagrantes. Jesus percebeu que tinha de criar um sistema à volta dele para que a equipa funcionasse, pelo facto de ser um avançado com pouca mobilidade e velocidade, com um cabeceamento exímio e sentido de aproveitamento espantoso.

Quando Jorge Jesus saiu, Dost ficou no plantel do Sporting, apesar dos episódios de Alcochete. Na época seguinte, teve alguns problemas com lesões, que mesmo assim não o impediram de marcar 23 golos. Atualmente, joga no Eintracht Frankfurt, ao lado de Gonçalo Paciência e André Silva.

Gabriel Barbosa - A par de Slimani, é um dos trabalhos mais surpreendentes de Jorge Jesus. Saiu muito jovem do Santos, diretamente para o Inter de Milão. Havia muita confiança depositada nele devido ao investimento realizado. O brasileiro não correspondeu às expectativas e foi emprestado ao Benfica, contudo, nem na Liga Portuguesa conseguiu relançar a carreira. Foi novamente para o Santos, onde mostrou melhorias e confiança.

O Flamengo chegou-se à frente em janeiro deste ano e conseguiu o empréstimo de Gabriel Barbosa. Jorge Jesus começou a orientar o clube em julho e Gabigol apresentou um desenvolvimento extraordinário. Nesta época, a faltarem quatro jogos no Brasileirão e com o Flamengo já campeão da Série A, assim como da Taça dos Libertadores, Gabriel soma 40 golos em 54 jogos e está isolado na lista dos melhores marcadores do Brasileirão. Foi também o maior artilheiro da Libertadores.

Grande parte da origem deste números tem Jorge Jesus como responsável e ambos já demonstraram um carinho especial um pelo outro.

Menções honrosas - Surgem aqui dois nomes que demonstraram evolução, embora de maneira diferente. É o caso de Teófilo Gutierrez que foi importante na caminhada da época 2015/2016 no Sporting CP e obteve os melhores números da carreira, desde que saiu do Racing Club (Argentina) em 2011. O outro nome é Bruno Henrique, parceiro de Gabriel Barbosa, que embora não seja um avançado de raiz, é um homem propício para o golo. Nesta época, foi autor de 23 golos em todas as competições. Ele e Gabigol juntos participaram em 73 golos da equipa carioca. Curiosamente, os rubro-negros nas duas competições vencidas, marcaram 97 golos, o que indica uma participação de 75% de ambos nos golos da equipa.

Estes factos elucidam que Jorge Jesus tem um acompanhamento especial aos avançados e embora seja muito rigoroso a nível tático, procura que as suas equipas joguem em função desses jogadores, até porque são os atletas com maior aptidão para o golo. O caso mais concreto é quando era treinador do Sporting, isto porque moldou uma estrutura a nível ofensivo para fornecer Bas Dost.

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