
Vítor Baía é vice-presidente e administrador do F. C. Porto
André Rolo / Global Imagens
Vítor Baía concedeu uma entrevista ao Porto Canal onde destaca o impacto do F. C. Porto na sua vida, a relação com Sérgio Conceição e o pior momento da carreira.
Em entrevista na estreia do programa Hora dos Craques do Porto Canal, o atual vice-presidente do F. C. Porto Vítor Baía reiterou que o clube azul e branco é a sua vida. Entre muitos tópicos, admitiu que o Euro 2004 foi o pior momento da carreira e teceu rasgados elogios a Sérgio Conceição.
Ser o melhor guarda-redes português de sempre: "Sou. Quando chegamos a determinada fase da nossa vida, já não vamos andar com aquilo que é politicamente correto e aquela hipocrisia, digamos assim. Também sabemos que infelizmente, apesar de ter um país pequeno, a forma como se comunica este tipo de questões, ou não tem muito de verdade, ou não são honestos na sua apreciação, porque há sempre cores clubísticas pelo meio, questões que levam as pessoas realmente a não ter opinião mais formada sobre esse tema. Digo isso analisando o meu currículo".
Reconhecimento em Portugal: "Lá fora o reconhecimento existe, não tenho dúvidas. Já tivemos essa perceção do carinho e da forma como somos tratados e aí sim, somos tratados pela dimensão que temos e por aquilo que conseguimos ao longo de uma carreira. Em Portugal, já sabemos como é. Quando vemos a comunicação, até pela posição em que estou, é uma diferença incrível, a forma como os clubes são tratados, cada um com a sua agenda pessoal, cada jornal com o seu editorial direcionado para um dos grandes, televisões com programas com pessoas muito vinculadas a determinados clubes, nada verdadeiros, não diz a realidade daquilo que em campo as equipas acabam por manifestar".
O primeiro jogo: "Senti responsabilidade, tinha 18 anos, com algum receio, como é lógico, porque tinha mesmo que jogar. É inesquecível a chegada apoteótica a Guimarães, com pedras por todo o lado, foi um batismo incrível. Víamos tudo a voar. Mas a partir do momento que entrei... sentia no balneário os meus colegas com alguma apreensão, tinha acabado de ser júnior, era um miúdo. Aquela equipa era campeã da Europa e do Mundo, com os craques todos lá. Podiam estar apreensivos, mas em termos de grupo de trabalho era incrível, os treinadores também. Mas a capacidade que tinha e tenho na vivência com a pressão já se notava naquela idade e ajudou-me na altura, como ajuda agora no dia a dia na minha vivência pessoal e com a família".
Papel de administrador no F. C. Porto: "Toda a gestão de equipa, treinadores e staff é feita por nós. Depois a logística ligada à primeira equipa e o que fazemos é criar condições para que tudo funcione o melhor possível. O presidente está por cima e nós abaixo. Somos dois administradores para a área do futebol, porque é sempre complicado quando são duas pessoas, mas o amor ao F. C. Porto leva-nos a ter um cuidado muito grande na tomada de decisões".
Papel de vice-presidente do F. C. Porto: "Quando terminei a minha carreira e fui para a faculdade já tinha em mente que não ia ser treinador, que a minha aposta era a área da direção desportiva. Foquei-me nisto toda a minha vida. Ir à procura de ferramentas na área de gestão. Estagiei em várias equipas, clubes, tirei pós-graduações, nunca estive parado, mas sempre nesta área. É isto que quero e sendo no meu clube do coração é maravilhoso, depois tenho o privilégio de estar ao lado de uma pessoa incrível".
Euro 2004 como o pior momento da carreira: "No Canal 11, como apresentador, puxei o assunto e o Scolari desviou, não respondeu. Nunca consegui, havia várias teses, foi uma decisão dele, é o que acho. Não me conheceu. Se me tem chamado a uma concentração para me conhecer e depois tomava a decisão, mas nem isso. Só nos conhecemos vários anos depois num jogo com Ronaldo "fenómeno" e Zidane, não foi meu treinador, joguei na outra equipa, mas conheci-o e foi uma pessoa extremamente agradável. Mas foi o meu pior momento, sim. Quando terminas uma época em que és campeão da Europa e és o melhor guarda-redes da Europa e a seguir há um campeonato no teu país... ninguém conseguiu encontrar explicação. Lembro-me do Buffon na altura também ter feito um comentário a dizer que não percebia como é que um guarda-redes que ganha a Liga dos Campeões não está pelo menos no grupo. Ninguém compreendeu, foi uma opção do treinador e já está".
Motivo da saída para o Barcelona: "Falei com o presidente, disse-lhe que queria experimentar algo diferente, que era legítimo e que poderiam ganhar dinheiro comigo, tenho a possibilidade de sair livre, mas não queria e disse para arranjarmos uma solução para o F. C. Porto ganhar dinheiro. Mas tudo conversado, não foi estou aqui na minha cadeira de sonho e, passado um bocado, espeto um facalhão ao presidente, ao clube, aos sócios e vou-me embora".
Possibilidade do AC Milan: "Depois de Barcelona podia ter ido para o AC Milan, mas quis regressar a casa. Já tinha experimentado uma nova realidade, porque poderia ganhar no F. C. Porto aquilo que ganhava, em termos de títulos, num grande clube e veio a confirmar-se, foi comprovado. Fomos campeões da Liga dos Campeões no F. C. Porto e o Barcelona ainda demorou mais três ou quatro anos, a ganhar a primeira Champions da carreira deles".
Relação com José Mourinho: "Excelente, tinha uma relação de família. Esteve connosco aqui no F. C. Porto, no início da carreira com o Bobby Robson, depois tive a felicidade de ir para Barcelona e acompanhei-o depois no F. C. Porto. Por isso é que tenho uma relação tão forte com o Zé, inteligente como é, tipo, vou escolher este rapaz como meu alvo, foi estratégico da parte dele, arranjou uma questão disciplinar, de alerta para os outros, se isto acontece com o Vítor Baía, que é um dos capitães... a partir daí teve os outros todos na mão, foi inteligente, ganhou a equipa e depois ganhou-me de novo, da mesma forma que potenciou estrategicamente que houvesse um conflito. Também foi o primeiro a dizer vem cá, vais jogar. Numa semana, estive um mês sem jogar, fui chamado ao gabinete e pergunta se queria jogar. Disse claro que sim. 'Então és tu e mais dez'. Da mesma forma que aconteceu aquilo, colocou-me a jogar num jogo de Taça UEFA e a partir dali ganhou equipa. O início dessa época nem foi nada bom, empatamos logo um jogo com o Belenenses (2-2) e depois temos o tal jogo da complicação no Boavista, em que ganhamos 1-0".
Relação com Sérgio Conceição: "O Sérgio conheço-o desde miúdo, a nossa vivência desportiva foi quase toda feito em conjunto, depois cada um seguiu o seu caminho internacional, acabamos por nos encontrar na seleção portuguesa e no F. C. Porto e olhando para o Sérgio, como jogador e treinador, a garra e a exigência está cá, mas passou para uma dimensão incrível. Neste momento, coloco o Sérgio entre os três melhores treinadores do Mundo e digo-o com convicção mesmo. Convivo com ele e é meticuloso, estratega, muito bom no potenciar e da forma como faz crescer o jogador, todo o staff está focado, sabem que não podem relaxar um segundo, é esse compromisso que exige a todas as pessoas que estão no clube e está preparadíssimo para qualquer desafio. Queremos que ele fique cá toda a vida, é um desejo do nosso presidente, porque encarna na perfeição o nosso espírito. Os tempos são outros, os jogadores, no nosso tempo, eram todos portugueses e feitos, crescidos no clube, o sentimento era diferente. Agora, nas zonas de comando ter um presidente como o que temos e um treinador como o que temos é uma ajuda incrível, seja na passagem daquilo que é a mística, o sentimento, o compromisso, a exigência e depois, a qualidade tem que lá estar. Não fazem a ideia da evolução do Sérgio enquanto pessoa e enquanto treinador, porque vai à procura de conhecimento e soube falar com as pessoas certas para o seu crescimento e neste momento está preparadíssimo para tudo".
