Novo Banco

BCE investiga relação entre António Ramalho e Luís Filipe Vieira

BCE investiga relação entre António Ramalho e Luís Filipe Vieira

O Banco Central Europeu (BCE) está a investigar a relação entre o presidente executivo do Novo Banco e o ex-presidente do Benfica e devedor do Novo Banco Luís Filipe Vieira, disse fonte oficial à Lusa.

O jornal Público noticia esta quarta-feira que o BCE investiga a relação entre António Ramalho e Vieira no Novo Banco, citando fonte oficial.

Na resposta enviada à Lusa, semelhante à dada ao Público, o BCE diz que a única coisa que pode dizer é que "está a seguir o caso" e, "de momento, a investigar". Fonte oficial da instituição com sede em Frankfurt disse ainda que, sendo esta uma história recente, irá evitar mais comentários.

Na segunda-feira, questionado sobre a eventual reavaliação da idoneidade de António Ramalho, o Banco de Portugal disse que a adequação dos banqueiros é feita em "cada momento" atendendo a "factos objetivos" e que no caso do Novo Banco (por ser uma instituição significativa) é o BCE o responsável "pela abertura e decisão de eventuais processos de reavaliação de idoneidade".

Contudo, acrescentou o Banco de Portugal que, quando necessário, "toma a iniciativa de partilhar com o BCE toda a informação relevante sobre instituições significativas logo que a mesma chegue ao seu conhecimento e articula com o BCE de modo a permitir uma decisão ponderada sobre eventuais diligências a adotar".

Disse ainda o Banco de Portugal que cada banco "está obrigado a reavaliar a adequação das pessoas designadas para os órgãos de administração e fiscalização sempre que, ao longo do respetivo mandato, ocorrerem circunstâncias supervenientes que possam determinar o não preenchimento dos requisitos exigidos".

PUB

As dúvidas sobre a idoneidade do presidente executivo do Novo Banco surgiram após terem sido divulgadas na imprensa conversas telefónicas de António Ramalho com o ex-administrador do Novo Banco Vítor Fernandes (atual presidente da SIBS), em que António Ramalho disse estar a agendar uma reunião com o então presidente do Benfica para o "preparar" para a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Novo Banco.

Segundo a Sábado, na mesma conversa, Ramalho disse estar desconfortável com a ida de Vítor Fernandes à Comissão de Inquérito e que outro administrador, Rui Fontes, estava a ser preparado pela empresa de comunicação Cunha Vaz & Associados e que perante os deputados esse administrador seria "monocórdico e chato, porque os gajos não vão perceber nada do que ele vai dizer".

O Público recorda hoje que Rui Fontes foi diretor de risco do BES entre 2012 e agosto de 2014, um período crítico do banco cuja resolução deu origem ao Novo Banco.

Luís Filipe Vieira tem elevadas dívidas ao Novo Banco e vários créditos foram reestruturados e vendidos em condições que, na Comissão Parlamentar de Inquérito, levantaram dúvidas aos deputados.

Segundo o inspetor tributário Paulo Silva, no processo da operação Cartão Vermelho citado pela revista Sábado, esses encontros preparativos "vêm ainda mais evidenciar a preocupação, de parte a parte, que o devedor e o credor têm com a Comissão Parlamentar, em tentativas de concentração de posições entre pessoas que [...] tiveram intervenções que indiciam ser lesivas monetariamente para o Novo Banco que, em face do mecanismo de capital contingente, foram transferidas para o Fundo de Resolução".

Segundo o despacho de indiciação da operação Cartão Vermelho, diz a Sábado, há dois ex-diretores do Novo Banco referidos, Álvaro Neves (suspeito de "relacionamento privilegiado" com os empresários referidos no processo) e Pedro Pereira (referido em escutas como contacto de um consultor de uma entidade ligada à compra de créditos do Novo Banco a Luís Filipe Vieira). O Novo Banco disse à Sábado que Álvaro Neves foi despedido e Pedro Pereira está suspenso de funções com processo disciplinar em curso.

Na sexta-feira, em entrevista à CNN, António Ramalho disse que a sua idoneidade é "revista permanentemente", que "não houve da parte do Novo Banco nenhuma concertação ou preparação do senhor Luís Filipe Vieira para efeitos da comissão de inquérito" e que sempre defendeu "os interesses do banco e da comissão de inquérito".

"Pensar que um banco era capaz de manipular uma comissão de inquérito, que era capaz de manipular pessoas que respondiam perante uma comissão de inquérito, parece-me de um mundo totalmente virtual", disse Ramalho na entrevista televisiva.

António Ramalho admitiu que se reuniu com Luís Filipe Vieira a 3 de maio de 2021, sete dias antes da ida do presidente da Promovalor ao Parlamento, e "depois de se ter assistido, na comissão de inquérito, a um momento particularmente triste, que foi a intervenção de Bernando Moniz da Maia".

O presidente do Novo Banco caracterizou o encontro com Vieira como sendo "uma reunião particularmente rápida" em que não estava sozinho, mas sim acompanhado por Castro Simões, "diretor [do banco] que é responsável pela gestão da Promovalor".

António Ramalho garantiu que na "conversa rápida apenas se falou de duas coisas": a disponibilidade do banco para "dar toda a informação que fosse necessária" para responder aos deputados "e simultaneamente para fazer uma sugestão", a de não fazer perante os deputados "as cenas de não saber, não conhecer e de não perceber o que é que se passa".

António Ramalho disse ainda que na sexta-feira, antes de falar à CNN, deu nota ao Banco de Portugal da entrevista e escreveu uma carta com a sua versão dos factos ao departamento de conformidade ('compliance') do Novo Banco.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG