Banco de Portugal

Centeno pede calma sobre subida de taxas de juro e atualizações salariais

Centeno pede calma sobre subida de taxas de juro e atualizações salariais

O governador do Banco de Portugal (BdP), Mário Centeno, apelou a cautela sobre as atualizações salariais, reafirmando a avaliação de que o aumento da inflação é um fenómeno "temporário". Recomendou ainda "calma" e "ponderação" aos membros do Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) sobre as declarações sobre o 'timing' da subida das taxas de juro.

"Neste momento é importante ter muita cautela na avaliação daquilo que são as atualizações salariais. Insisto que esta questão de reforço de rendimento disponível não é uma matéria apenas para um semestre ou para um ano. É uma matéria mais longa e, felizmente, Portugal tem um historial recente de reforço de rendimento disponível real, dos salários reais, que não observava há muitos anos", disse Mário Centeno, em Lisboa, na conferência de imprensa de apresentação do Boletim Económico de maio.

O responsável pelo banco central considera que os aumentos de salários e rendimento disponível das famílias em qualquer país não pode ser avaliado numa variável de curto prazo, argumentando que nos últimos seis anos os salários médios em Portugal cresceram acima da inflação.

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"Desde 2015, a inflação cresceu em termos compostos abaixo de 5% e os salários médios registados na Segurança Social cresceram muito próximo de 20%", exemplificou, acrescentando que, se não acontecer mais nenhum choque daqueles que temos vindo a sofrer, este pode ser o ponto mais alto do fenómeno inflacionista.

Mário Centeno reiterou ainda que, apesar da subida de inflação, este deverá ser um fenómeno temporário, uma vez que continua a não "identificar nenhuma natureza interna endógena ao fenómeno de formação dos preços".

Ainda assim, sublinhou: "Devemos estar sempre muito atentos ao que os preços nos sinalizam na tomada de decisões", considerando que a transição climática tem um impacto na "transformação estrutural no comportamento".

Para o governador do banco central, "é um fenómeno muito complexo, difícil de avaliar" e um desafio para os bancos centrais.

Mário Centeno defendeu ainda a importância da diminuição do endividamento, argumentando que, mais do que o nível de endividamento, o foco deve ser a variável dessa redução.

Para o governador, quanto melhor for a condição financeira do Estado, das empresas e das famílias e "mais acertada" for a resposta financeira dos mesmos três agentes institucionais melhor se conseguirá "acomodar as decisões" que serão tomadas para dar resposta a crises, como a pandemia.

"Ponderação" nas declarações de membros do BCE sobre subida de juros

Mário Centeno recomendou ainda "calma" e "ponderação" aos membros do Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) sobre as declarações sobre o 'timing' da subida das taxas de juro.

Em causa estão as declarações esta semana de Isabel Schnabel, membro do Conselho Executivo do BCE, de que "um aumento das taxas em julho é possível", e, por outro lado, do também membro do conselho Fabio Panetta, de que "seria imprudente agir sem saber primeiro os números concretos do PIB do segundo trimestre e discutir outras medidas".

Questionado sobre o tema, durante a conferência de apresentação do Boletim Económico de maio, hoje, no Museu do Dinheiro, em Lisboa, o governador do Banco de Portugal (BdP) defendeu que "quando o BCE diz que age dependente ou de forma ligada aos dados isso é absolutamente verdade".

"E, a menos que algum desses membros do Conselho de Governadores tenha acesso a dados que ainda não são divulgados, eu recomendaria alguma calma e ponderação nessas comunicações", afirmou.

Mário Centeno sublinhou: "Ou somos dependentes de dados", ou existe "acesso a informação que não é disponível por todos e há aqui uma assimetria".

O governador do BdP acrescentou que o Banco Central Europeu (BCE) "tem tido um sucesso enorme na forma como tem gerido a sua política monetária", vincando que tem sido feita uma "declaração muito clara no sentido de normalização da política monetária", isto é, de uma posição mais neutra face aos estímulos que foram considerados importantes para responder ao impacto da pandemia, garantindo que "essa trajetória vai com certeza ser concretizada".

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