Economia

Especiarias dão fama mundial a mercearia portuguesa

Especiarias dão fama mundial a mercearia portuguesa

A mercearia da Rua dos Tanoeiros, no Funchal, é um pequeno negócio de família e ganhou fama na Madeira e no estrangeiro devido à venda de especiarias, sobretudo as que são usadas na confeção das iguarias de Natal.

"Nós mantemo-nos fiéis à tradição de vender avulso e somos muito conhecidos pelas especiarias, que vêm de diferentes pontos do mundo, como Índia, Jamaica e Tanzânia", explicou a agência Lusa Paulo Bento, que gere o negócio, herdado do pai, juntamente com a mulher e a mãe.

A mercearia existe há 150 anos, embora só esteja na família há 70, e é uma das duas, no Funchal, que funcionam segundo os moldes tradicionais, com venda de produtos à medida do freguês.

"Aqui, não impingimos nenhum peso ao cliente. Fazemos a medida consoante ele quer", disse Paulo Bento, salientando que, deste modo, o público compra mais barato do que nas grandes superfícies.

Na época natalícia, as especiarias são vendidas ao grama, sobretudo para o fabrico de bolo de mel, broas de mel, bolo preto e bolo família, havendo pessoas que chegam com receitas do tempo dos avós, onde estão indicadas as quantidades certas.

"Temos uma [cliente que tem uma] receita que ainda cá vem e que está há mais de 120 anos naquela família", contou, sublinhando, no entanto, que, nos tempos que correm, também aparecem clientes com as receitas no 'tablet' ou no telemóvel.

A mercearia criou, por outro lado, uma mistura de especiarias, com base numa receita própria com mais de 100 anos, que é vendida para todos os continentes, sobretudo onde a comunidade madeirense é mais expressiva, como na África do Sul, na Venezuela, na Austrália e em França.

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"É engraçado que até já me chegou aqui um chinês", disse Paulo Bento, contando que ele veio a mando de emigrantes madeirenses na China e que "chegou com um mapa na mão, onde estava assinalada a localização da mercearia, só para comprar as nossas especiarias".

O estabelecimento, na baixa da cidade, foi bastante afetado pelo temporal de 20 de fevereiro de 2010, o que obrigou a uma remodelação, mas mantém o figurino das antigas "vendas", com uma parte destinada às mercadorias e outra de taberna, que também é muito popular.

"Houve uma altura em que pensámos mudar o estilo do negócio, mas compreendemos que as pessoas não iam gostar. Isso não nos ia ajudar nem credibilizar", explicou Paulo Bento, afirmando que a aposta na linha tradicional acabou por tornar o estabelecimento raro e famoso.

A mercearia da Rua dos Tanoeiros já foi notícia em vários órgãos de comunicação social regionais, nacionais e internacionais, nomeadamente numa revista alemã e numa televisão austríaca, no âmbito de reportagens sobre o comércio tradicional no Funchal.

"Além das especiarias, também vendemos os frutos secos, vendemos feijão, grão-de-bico, trigo, vendemos tudo o que é necessário para uma mesa típica madeirense", disse Paulo Bento, destacando ainda "as famosas peneiras, as vassouras de piaçaba e os baldes de plástico".

As épocas altas são o Natal, à conta da confeção de iguarias, e o verão, por causa dos emigrantes. Nos últimos dias, até se formaram bichas nas duas portas, mas Rosa Lopes, 62 anos, lembra-se de tempos muito mais agitados, quando chegaram a ter seis empregados.

"Antigamente, faziam-se compras aqui para toda a ilha e também para o Porto Santo. Os empregados entregavam mercadoria nas residências, iam por encomendas nas camionetas que viajavam para o campo e no barco que ia para o Porto Santo", contou, lembrando que o período mais difícil aconteceu após a morte do marido, há 16 anos.

Mas orgulha-se do empenho do filho e de ambos terem conseguido "levantar isto debaixo do zero".

"Tal como no tempo do meu pai, mantemos os preços sempre baixos e, principalmente, mantemos a qualidade do serviço e dos produtos", reforçou Paulo Bento.

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