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A fase próspera do setor têxtil parece ter os dias contados, a julgar pelos números das exportações do primeiro semestre deste ano que foram menores que no período homólogo.
O fenómeno já não acontecia desde 2012, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) recentemente divulgados.
Nos primeiros seis meses do ano, o setor exportou 2683,6 milhões de euros, menos 1,6% do que os 2725,9 milhões exportados nos primeiros seis meses de 2018. É preciso recuar até 2012 para encontrar a data da última quebra das exportações. Naquele ano, o país estava sob assistência financeira da troika e o têxtil registou uma quebra de 2,1%. Desde então foi sempre a crescer, mas este ano voltou a ser negativo.
Os números do primeiro semestre foram altamente influenciados por um mês de junho muito negativo. Se nos primeiros cinco meses o volume de exportações apresentou índices semelhantes aos de 2018, o junho de 2019 foi tão mau que abalou as contas de todo o semestre. Assim, em junho deste ano, o setor exportou 415,9 milhões de euros, menos 12,7% do que no mesmo mês do ano anterior, registando o volume mais baixo desde 2014.
Segundo os empresários, são vários os fatores que justificam a quebra. Da guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, passando pela incerteza do Brexit ou a recessão da economia alemã, tudo tem contribuído para o vendaval que pode estar para vir no setor.
A isto soma-se a já denunciada quebra das encomendas da Inditex, a gigante espanhola dona da Zara, que empurrou para baixo as exportações para o país vizinho.
"A redução de Espanha tem sobretudo a ver com aquilo que foram as encomendas da Inditex, sobretudo aquelas que são muito baseadas no preço", revela Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP).
Os números da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção (ANIVEC) são reveladores dos motivos. "Registamos uma quebra de 1,2% para Espanha, 5,7 para a Alemanha e 5,3% para o Reino Unido", adianta César Araújo, presidente da ANIVEC.
A preocupação instala-se nos vales do Ave e Cávado, pois há concelhos muito dependentes do setor. Se a Póvoa de Lanhoso é o mais dependente, Guimarães e Barcelos são os que mais exportam.
Ricardo Costa, vereador da Câmara de Guimarães, pede ao Governo que acelere as medidas já propostas pela Autarquia para travar uma eventual crise: "Não podemos ser meros prestadores de serviços, temos de criar necessidades". Em causa estão ações importantes como o I9G ou a redução do custo de tratamento das águas residuais.
A SABER
Pequenas a fechar
As pequenas empresas do Ave e Cávado estão a falir em ritmo acelerado desde janeiro, denunciou a Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas, que agora não comenta os números das exportações.
Os mais expostos
Os concelhos da Póvoa de Lanhoso, Fafe e Barcelos são os que têm no têxtil mais de 70% do total das suas exportações, estando, por isso, mais expostos a uma eventual crise. Seguem-se Lousada, Vizela e Guimarães.
Os mais valiosos
Guimarães é, consecutivamente, o concelho que mais contribui para as exportações do têxtil. Seguem-se Barcelos e Vila Nova de Famalicão. Há outros concelhos relevantes como Fafe, Vizela, Braga e Lousada.
Plano de emergência
Em julho, o Parlamento aprovou uma recomendação do PCP e BE com oito medidas para salvar o setor têxtil. O processo começara com uma visita ao Norte, em janeiro, onde os deputados ouviram, dos empresários, que uma crise estava iminente.
