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Maioria dos restaurantes e cafés abdica do lay-off por ser difícil o acesso

Maioria dos restaurantes e cafés abdica do lay-off por ser difícil o acesso

Número de empresas que aderiram até dia 17 deste mês não chega a um terço do total do setor.

Os dados do Ministério do Trabalho mostram que, até ao dia 17 de abril, acederam ao lay-off simplificado 20 554 mil empresas dos setores do alojamento, restauração e similares. No entanto, há mais de 100 mil empresas naqueles três ramos e 75 783 só na restauração e cafés, o que significa que nem um terço quer ou consegue aceder à medida.

Isto sucede quando 74% dos empresários já têm o estabelecimento fechado e mais de 80% preveem ter faturação zero nos meses de abril e maio, segundo o inquérito levado a cabo pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP). Ou seja, uma grande percentagem está desprotegida. A restauração, onde o fecho dos estabelecimentos é praticamente obrigatório, é quem mais sofre.

Só neste setor, 94% das cerca de 75 mil empresas tem menos de dez trabalhadores. É aqui que estão os negócios familiares. Do bacalhau ao gourmet, todos foram afetados e a falta de liquidez é o principal problema.

São muitos milhares de casos em que marido e mulher dependiam do mesmo negócio e ficaram sem fonte de rendimento. A esmagadora maioria não recorre ao lay-off por não conseguir preencher os requisitos da medida, sobretudo por falta de liquidez [dinheiro em caixa], o que abre caminho a uma desproteção social "desgraçada", "violenta" e "assustadora", segundo o Sindicato de Hotelaria do Norte (SHN).

Encargos são pesados

"Uma empresa com faturação zero não tem possibilidade de suportar o encargo dos 30% do salário do trabalhador em lay-off", assinala Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, que defende uma comparticipação de 10% do patrão.

Depois, muitos não querem lay-off porque os sócios-gerentes não são abrangidos (só tem direito quem não tiver funcionários e faturação anual até 60 mil euros) e temem não conseguir cumprir a obrigatoriedade de manter os empregos.

Ana Jacinto reconhece "o empenho do Governo", mas avisa que "a única alternativa para salvar estas empresas é injetar dinheiro a fundo perdido rapidamente". Atualmente, todas as medidas implicam contrapartidas. São uma espécie de máquina que liga as empresas à vida e que, quando for desligada, vai ter custos tão grandes que muitas podem falir. "Não morrem da doença, morrem da cura", lamenta Ana Jacinto.

Há, ainda, as empresas que têm dividas e, por isso, estão impedidas de aceder. "São empresas que encerraram, não pagaram o salário nem recorreram ao lay-off", denuncia Francisco Figueiredo, do SHN. As denúncias de dramas sociais são tantas que o sindicato reforçou a equipa de telefonistas e tem quatro, todos os dias, exclusivamente dedicados a atender denúncias. O SHN estima que cerca de 200 mil funcionários do setor fiquem sem salário de março. A confirmar-se, é mais de metade do total.

Jorge Cruz, dono do restaurante "O Bacalhau", em pleno centro de Braga, vive dias "dramáticos". Numa altura em que devia estar a encher o espaço com espanhóis atraídos pela Semana Santa, as portas do estabelecimento estão fechadas e as dívidas acumulam-se. Jorge está preocupado consigo, com a mulher e com as duas filhas que ali trabalham e, agora, também estão "presas" em casa. "Não temos trabalho, não temos dinheiro e as faturas continuam a chegar. É assustador", lamenta.

O empresário de 49 anos está, há 15 anos, à frente deste negócio familiar e, confessa, já passou "por muitas crises", mas "nunca como esta". "É dramático, porque sinto-me na cadeia e não fiz mal a ninguém", atira Jorge Cruz, que só em rendas e eletricidade já terá, por esta altura, uma dívida "de cerca de cinco mil euros".

"Esta devia estar a ser a fase boa. Estávamos todos à espera da Páscoa para regularizar as contas do inverno", conta, sublinhando que entre a Quinta-Feira Santa e o domingo, comprava, pelo menos, "200 quilos de bacalhau" para refeições. "Os espanhóis gostam muito de bacalhau", frisa.

Com o São João de Braga, também cancelado, Jorge Cruz não antevê quando poderá recuperar as finanças. "Se não houver Noite Branca, vai ser uma catástrofe", afirma, admitindo que já colocou o restaurante numa agência, para tentar "o trespasse", mas não está confiante que alguém assuma o negócio em tempos de crise. "Acho que a minha única alternativa vai ser recorrer a linhas de crédito, mas isso, depois, vai ter custos", afirma o empresário, assumindo que, da família, apenas ele está apto a receber benefícios da Segurança Social. "E faço descontos porque sou obrigado. Quando é para ajudar, ninguém ajuda", critica o empresário. Já tentou o serviço de takeaway para minimizar o fecho de portas, mas desistiu, porque "não compensa".

O desalento de Jorge Cruz é notório em cada frase. Ontem, voltou ao restaurante apenas para uma desinfeção geral. Foi acompanhado da filha Cristina Leite, com 30 anos, que também tem sofrido com o fecho do negócio, mas tem mais confiança no futuro. "O meu apoio tem sido a família. Tentam que eu não veja televisão, porque está sempre a dar a mesma desgraça. Vejo os casos a aumentar noutros países, quem nos dava o dinheiro a ganhar, como Espanha.

Não fosse a pandemia e o estado de emergência, teria tido muitos clientes no seu restaurante ao longo da última Páscoa. Mas fiquei em casa", lamenta.

Um negócio fechado é sempre uma adversidade, mas quando é uma empresa que providencia sustento para uma família inteira, a fatalidade é inevitável. Christian Rullán é o dono e chef do Le Babachris. A mulher, Bárbara Rodrigues, serve à mesa, e uma funcionária de limpeza em part-time completa o leque de trabalhadores.

O restaurante está fechado há três semanas, desde o estado de emergência, e o parco rendimento que o casal tem vem do lay-off de Bárbara que, enquanto funcionária, recebe dois terços do salário. "Eu sou gerente e o lay-off não me abrange, o Estado deve pensar que vivo de outra coisa qualquer", desabafa Christian.

O chef, de Maiorca, Espanha, investiu no restaurante em Guimarães há quase seis anos e é um dos seis portugueses na lista do Bib Gourmand, o guia da Michelin para restaurantes com boa qualidade-preço. Apesar do reconhecimento social e internacional, o Le Babachris é uma das muitas microempresas da área da restauração que, no país, estão em risco. "A realidade ainda não chegou, vem dentro de dois ou três meses. Não vamos ter liquidez [dinheiro em caixa] para sobreviver e poder manter a família", assume o dono.

Lá em casa, além do casal, mora a filha de quatro anos. O rendimento do restaurante servia ainda para pagar as propinas, rendas e outras despesas inerentes à universidade do filho mais velho, de 20 anos, que continua a estudar. Agora estão praticamente a zero. Não sabem, por isso, se aguentam o restaurante até ao fim da crise porque não sabem quando vão poder abrir. "Não sei se aguentamos, mas é seguro que vamos ter de fazer uma mudança", constata o chef, que estima o prazo de "cinco anos" para recuperar do rombo que o fecho provocou.

No início ainda tentaram o takeaway, mas a adesão foi nula. "Cozinhamos para congelar e ainda hoje comemos takeaway", revela Bárbara. Depois, decidiram cortar nas despesas, mas esbarraram em burocracias e condições que os anúncios do Governo não contaram. Por isso, Christian continua a pagar água, gás, eletricidade, renda e créditos do restaurante. "Os bancos deram uma moratória de seis meses, pedi ao meu banco um plano financeiro e só me pediam juros e comissões, assim não pode ser", critica.

Para Christian, a única solução é "o Banco Central Europeu injetar dinheiro nos países e os governos garantirem liquidez às microempresas, porque nenhuma vai aguentar", avisa, enquanto adverte que em 2010 "foram as pequenas empresas que salvaram a Banca e o país".

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