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Paragem de apenas dois dias revolta os pescadores

Paragem de apenas dois dias revolta os pescadores

Setor da pesca quer metade da frota paralisada. Os preços caíram a pique com o fecho dos restaurantes. As exportações são mínimas e o risco para a saúde não compensa.

Com o mercado "inundado de peixe", os preços estão a cair a pique. Os pescadores não aguentam mais. Protestaram. O Ministério do Mar prepara a paragem da frota das 22 horas de sexta até à mesma hora de domingo (dois dias, na prática), a partir da Páscoa. Homens do mar alertam: "Ou a frota pára 50% de cada vez ou vamos morrer todos".

"Estou a vender rodovalho, que era de 12/13 euros, a cinco. Gasto 300 euros de gasóleo por dia, tenho dez tripulantes. O preço do peixe caiu 50%. Feitas as contas, o pessoal está a tirar ordenados de 300 ou 400 euros!", explica Manuel Marques, armador e mestre do "Silva Marques".

"Se continuarmos todos ao mar, só estaremos a carregar o mercado e, se formos contaminados, ficamos todos doentes", continua. A bordo, diz, "é impossível manter as distâncias de segurança" e, no cais de descarga, "idem, aspas". Só nas Caxinas, em Vila do Conde, na maior comunidade piscatória do país, "há três mil pescadores e 150 barcos". Trabalham em Aveiro, Peniche, Figueira da Foz, Matosinhos. Se o vírus chega à pesca, frisa, "infeta tudo".

A restauração parou e as exportações para a Espanha são "quase nenhumas". Resultado? Baixa abrupta de preços. Preocupados, os pescadores exigiram medidas. O Ministério do Mar sugeriu a paragem de todos os barcos entre as 22.00 de sexta-feira e as 22.00 de domingo.

"Reunimos as organizações de pesca (OP) e apresentamos uma contraproposta: começar à quinta-feira. Protegia mais o pessoal e os preços subiam um bocadinho", explicou o presidente da Apropesca - Organização de Produtores da Pesca Artesanal, Carlos Cruz.

"A paragem será de sexta a domingo. Deverá entrar em vigor no fim de semana da Páscoa", afirmou, ao JN, o secretário de Estado das Pescas, José Apolinário, que, depois de ouvir todas as OP, tentou "o consenso possível".

"O que era preciso mesmo era parar 50% da frota e dar apoios à cessação temporária", reclama Carlos Cruz.

Quanto a isso, diz José Apolinário, a Comissão Europeia abriu, ontem, a porta ao pedido de Portugal. A ideia é permitir aos países canalizarem verbas de outras medidas do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas para o apoio a cessações temporárias, tendo em conta a pandemia do novo coronavírus. Manuel Marques teme que aquele apoio só chegue em maio e avisa: "Se ninguém fizer nada, a pesca não vai aguentar".

Apoio de 2,7 milhões de euros
O Ministério do Mar anunciou uma linha de apoio de 2,7 milhões de euros para equipamentos e material de proteção. Os pescadores dizem que "só pode ser uma brincadeira". "Há anos que andamos a pedir para abater embarcações e remodelar a frota", diz Manuel Marques.

Linha de 20 milhões de euros
Há ainda uma linha de crédito de 20 milhões de euros, a cinco anos, com o pagamento dos juros pelo Estado. Foi também acelerado o pagamento de 350 mil euros das 508 candidaturas ao Fundo de Compensação Salarial, relativas a 2018 e 2019. Será pago nos próximos dias.

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