
Na JFA o calor da central de cogeração vai ser aproveitado para fazer vapor e água quente para a tinturaria
Miguel Pereira / Global Imagens
Dificuldades estão na falta de trabalhadores e de matérias-primas. Apesar disso, o momento é positivo. Inovação foi o segredo para se manter competitivo depois de, em 2005, se vaticinar a morte do setor.
O setor do têxteis-lar, no Vale do Ave, está a viver um bom momento. Depois de alguma incerteza, nos primeiros meses da pandemia, no verão do ano passado as encomendas dispararam. As empresas têm tanto trabalho que a principal ameaça para o setor é a dificuldade de cumprir com as encomendas por falta de mão de obra e de matérias-primas.
Na altura em que as empresas asiáticas encerraram, em virtude da covid-19, o comércio de produtos têxteis não parou. As pessoas deixaram de comprar vestuário, com os confinamentos e o teletrabalho, mas passaram a dar mais importância ao conforto e à decoração do lar. As marcas que antes mandavam fazer na Ásia foram obrigadas a procurar soluções em outras geografias.
Depois de ter resistido à liberalização do mercado dos têxteis, em 2005, tornando os processos mais eficientes e sustentáveis, a indústria portuguesa tinha excelentes condições para aproveitar a oportunidade.
Segundo Mário Jorge Machado, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, os custos de contexto, a energia e os impostos determinaram o fim da competição pelo preço. "Para sobreviverem, as empresas têm de encontrar uma oferta diferenciadora, de elevado valor acrescentado por via da tecnologia, inovação, serviço, criatividade ou de um mix, oferecendo soluções à medida do cliente, mantendo qualidade e resposta rápida", frisa. A inovação no têxtil português tem passado por projetos colaborativos entre as empresas e os centros de investigação, particularmente o Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e do Vestuário (CITEVE) e o Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes (CENTI). Estes dois centros integram um quarto dos 64 consórcios que passaram a primeira fase de seleção da Agenda Mobilizadora do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). "À exceção de dois, todos envolvem têxteis", adianta Braz da Costa, diretor-geral do CITEVE. São projetos que passam pela gestão inteligente e integrada da água, digitalização, bioeconomia, embalagens e plásticos sustentáveis.
Outro campeonato
João Gomes, diretor de operações do CENTI, indica que o centro funciona como departamento de investigação e desenvolvimento (I&D) que as empresas pela sua dimensão não conseguem ter. Para este investigador, o têxtil português sobreviveu porque se reinventou, passou de uma indústria que vendia pelo preço baixo para uma que vende valor acrescentado e que tem marca própria. "Portugal é uma das poucas regiões na Europa onde o têxtil sobrevive e já não é pelo baixo custo da mão de obra", afirma. A China continua na competição pelo preço, mas, segundo o investigador, "este já não é o campeonato das nossas empresas".
"Depois dos transportes e da refinação, a indústria têxtil é o maior poluente do planeta", aponta João Gomes. Isto apresenta-se como uma oportunidade para a indústria portuguesa, "porque já está a traçar o caminho de uma produção mais sustentável e com maior valor acrescentado e isso é reconhecido pelos clientes". Na China, continua, "embora identifiquem esta necessidade, têm mais dificuldade porque produzem em volume".
Quando a China fechou, o têxtil aproveitou a oportunidade
A empresa Têxteis J.F. Almeida (JFA), em Moreira de Cónegos, Guimarães, vive tempos risonhos relativamente a encomendas. "Os fretes marítimos estão muito mais caros, o que gerou um problema para as fábricas da Ásia... e, naturalmente, os compradores estão a virar-se para Portugal", afirma João Almeida, filho do fundador e responsável pelo departamento Investimento e Desenvolvimento. E "quando a China fechou, [devido à pandemia], estávamos preparados para agarrar a oportunidade", refere o empresário.
"Há 10 anos, para tingir um quilo de algodão precisávamos de 12 a 15 litros de água. Hoje fazemos com cinco a seis litros". Com a produção que tem hoje, mantendo as mesmas máquinas, a empresa gasta 150 metros cúbicos de água por hora, ou seja metade do que gastava há uma década. Os teares que equipam a linha de produção, mantendo o mesmo consumo energético, produzem agora o dobro de há 10 anos.
"Há seis anos na Techtextil [feira internacional em Frankfurt] percebi que a indústria do vestuário estava a enveredar pelo caminho da inovação, mas que no têxteis-lar não havia nada e começamos a partir daí", conta João Almeida. A inovação no processo produtivo já se tinha iniciado antes, mas a partir daquela altura focaram-se mais no produto, com a junção à equipa de um engenheiro de gestão industrial, têxtil e outro químico.
Toalhas que aquecem
A primeira ideia que ganhou tração foi um tecido que incorpora filamentos condutores, permitindo aquecer as peças. Aplicado a toalhas de banho, a robes ou a chinelos, faz com que estas peças estejam sempre secas e com uma temperatura de conforto. Os filamentos são tão finos que não são percetíveis e, portanto, não limitam a estética. O produto foi desenvolvido em parceria com o Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e do Vestuário e com o Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes, já existe como protótipo industrial e está em processo de industrialização.
O Re-Yarn é outro produto da investigação da empresa, já em comercialização. Trata-se de um fio produzido a partir de desperdícios têxteis da tecelagem, que antes iam para o lixo.
João Almeida sublinha a importância de responder aos desafios da sustentabilidade para ganhar a confiança dos clientes, não só pelo produto, mas também pelas certificações de qualidade.
A equipa está agora focada num tapete que dá feedback a quem o pisa, mas sobre isto ainda não se pode falar.
Para o empresário , foi este misto de inovação nos processos, incorporação de tecnologia no produto e preocupações com o ambiente que criaram o contexto para que o têxtil-lar pudesse aproveitar a crise dos mercados asiáticos.
Mais inovação
TMG
Produz têxteis técnicos para a indústria automóvel (usados pela Mercedes e pela Toyota) capazes de resistir sem desbotar a 80 graus centígrados e a 50 negativos, ou à prova de suor, ketchup ou cremes solares, por exemplo.
Têxteis Penedo/CENTI/CITEVE
Fazem cortinas tecidas com fibras óticas que depois levam LED para criar efeitos de luz. Podem ser ligadas à eletricidade, a uma bateria ou integrar painéis fotovoltaicos.
Faria da Costa/CITEVE
Uma meia com um chip alimentado por uma bateria (lavável na máquina) que permite regular a temperatura dos pés.
Simoldes/CENTI/CITEVE
Desenvolveram uma técnica que permite imprimir circuitos eletrónicos nas peças dos automóveis. O têxtil não se vê, mas está no revestimento das peças. Esta tecnologia permitirá transformar toda a superfície do carro num sensor.
Coltec
Um colchão de uso hospitalar com sensores para monitorizar o tempo e a pressão a que está sujeito. O equipamento emite um sinal de alerta caso o doente esteja muito tempo na mesma posição.
