Entrevista

Ursula von der Leyen: "Temos de ser cuidadosos com a dívida, terá de descer"

Ursula von der Leyen: "Temos de ser cuidadosos com a dívida, terá de descer"

"Este dinheiro implica cumprir recomendações específicas de Bruxelas", avisa a presidente da Comissão Europeia, em entrevista ao JN/DV.

A presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, esteve em Portugal durante dois dias, na sua primeira visita oficial ao país. Em entrevista ao JN/Dinheiro Vivo, elogia muito os "sucessos" alcançados, mas avisa que o dinheiro do plano de recuperação traz condições que é preciso cumprir.

Portugal tem de aproveitar esta crise e estes fundos para se tornar num país diferente. Deve tentar ser mais como a Alemanha, mais industrializado, e menos dependente do turismo?

Penso que Portugal é Portugal, é um país único e tem agora oportunidades maravilhosas para beneficiar do Plano de Recuperação Próxima Geração UE (Next Generation EU) porque concordámos a nível europeu que temos duas prioridades. Uma é o Pacto Ecológico Europeu, o plano de combate às alterações climáticas, e a outra é a Digitalização. Em ambos os domínios, Portugal é forte. E agora é a altura certa para vocês fazerem investimentos na modernização da economia. Portugal saiu da outra crise e registou uma recuperação impressionante, impressionante... Mas este sucesso tem de ser mantido e têm de investir nas tecnologias do futuro.

O Plano de Recuperação, cujo financiamento a fundo perdido [subvenções] ascende a 15,3 mil milhões de euros, vai ser contratualizado entre as autoridades nacionais e a Europa. Que condições podemos esperar?

O Plano de Recuperação de Portugal, tal como os dos restantes países membros, vai ser feito à medida, mas a Comissão defende três pontos a cumprir. Têm de ser respeitadas as recomendações específicas; o país tem de combater as alterações climáticas, isto é, de investir no Pacto Ecológico de modo a atingir a neutralidade climática; e de cumprir metas no campo da digitalização, como infraestruturas, 5G, 6G, fibra, economia de dados, inteligência artificial. Esta combinação tem de estar refletida no Plano de Recuperação nacional. Já estamos a trabalhar com o Governo português, estou muito confiante de que o país vai ser bem sucedido.

Elogiou os planos e as políticas de Portugal para ultrapassar esta crise histórica. No entanto, há sinais de que alguns setores estão a falhar a recuperação. Ou seja, a retoma está a ser muito mais fraca do que se esperava. Devemo-nos preocupar com uma segunda vaga de crise?

O vírus atingiu a economia portuguesa, que estava a ter uma recuperação forte, mas não foi culpa de ninguém. É um vírus que está a provocar estes problemas. Estamos a fazer tudo para ultrapassar este período difícil, que é ter de conviver com o vírus até termos uma vacina. Foi por isso que a CE flexibilizou todas as regras relativas às ajudas de Estado, os fundos estruturais. E agora, em cima disso, no plano Próxima Geração UE, o objetivo é que as nossas empresas saudáveis tenham tempo para hibernar e para se prepararem para o mundo pós-coronavírus.

Portugal já tinha uma dívida elevada antes desta crise e deverá sair dela com um fardo ainda maior. O Pacto de Estabilidade pode ajudar os muito endividados com mais flexibilidade?

Neste momento, flexibilizámos totalmente o Pacto de Estabilidade e Crescimento através do acionamento da cláusula de salvaguarda. E agora, durante a pandemia, não é altura para mudar nada neste domínio. Mas, no longo prazo, todos teremos de ser cuidadosos em relação à dívida, esta terá de descer, os países no seu conjunto terão de reduzir as suas dívidas. Mas o melhor remédio contra a dívida é uma economia forte.

A componente subvenções é uma tentativa de não sobrecarregar mais as dívidas.

Sim. Foi importante para mim ter as subvenções, poder investir em Portugal sem aumentar o nível da dívida.

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