Descobrir Mentes

Saúde mental continua a lutar contra estigma difícil de vencer

Saúde mental continua a lutar contra estigma difícil de vencer
Produzido por:
Brand Story

Pandemia fez com que o tema saltasse para a ordem do dia, mas especialistas defendem que ainda há um longo caminho a percorrer e que faltam recursos

Continua a existir um preconceito generalizado por parte da população portuguesa no que respeita à saúde mental e aos constrangimentos críticos que daí podem advir. Esta foi uma das conclusões a ressaltar do encontro entre especialistas realizado, ontem, na Rádio Antena Livre, no âmbito do projeto "Descobrir Mentes", levado a cabo pelo Jornal de Notícias, pela TSF e pela farmacêutica Janssen. Desta vez, foi a região de Lisboa e Vale do Tejo a merecer o protagonismo.

Segundo Luís Câmara Pestana, chefe do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, "apenas uma em cada quatro pessoas procura - olhando para o caso da depressão - os cuidados de saúde para fazer uma avaliação". Câmara Pestana afirmou mesmo que "o estigma à volta deste tema é problemático porque se entende que os estados depressivos têm apenas a ver com a fraqueza da pessoa em lidar com a adversidade".

Visão idêntica partilhou Teresa Maia, coordenadora da Unidade Funcional de Psiquiatria do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF). "Continua a haver algum estigma em relação à doença mental e, portanto, há pessoas que atrasam demasiado o pedido de ajuda", esclareceu a responsável. A coordenadora do HFF acrescentou ainda que até no seio hospitalar existe "um longo caminho a percorrer e muito a melhorar quer em termos da abordagem nos cuidados de saúde primários para os quadros mais ligeiros, quer depois no acesso a tratamentos diferenciados".

Apesar do cenário de desvalorização dos problemas ligados à sanidade mental ainda prevalecer, Teresa Maia realçou o efeito profilático que a atual época pandémica tem de certa forma assumido. "Nunca se falou tanto de saúde mental como desde a pandemia, e esse efeito é positivo. As pessoas têm-se envolvido muito e assim é que tem de ser", sublinhou a psiquiatra.

Luís Oliveira, neuropsicólogo e vice-presidente da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB), comprovou igualmente a maior afluência dos portugueses à ajuda psicológica especializada nos últimos tempos. "Acompanhamos cerca de 400 pessoas na zona de Lisboa e constatamos que, em 2020, no primeiro semestre, praticamente atingimos o mesmo número de consultas que tínhamos atingido em todo o ano de 2019", explicou.

Recursos escasseiam

Porém, como reverso da medalha, o dirigente da ADEB assumiu que não tem sido fácil atender tantas solicitações, pois "os recursos humanos não são ilimitados e para se prestarem bons cuidados de saúde é necessária mais gente e são precisas mais condições". Luís Oliveira declarou inclusive que "só com uma postura missionária é que se consegue fazer um trabalho profícuo nesta área".

A propósito desta questão mais estrutural do campo da saúde mental, Luís Câmara Pestana disse não ser necessária uma reforma profunda, já que a organização dos serviços é "bastante razoável". O psiquiatra do Hospital de Santa Maria defendeu, contudo, "a necessidade de uma articulação entre os vários profissionais e os recursos existentes", admitindo também a importância de "existir uma maior autonomia dos serviços, nomeadamente em termos económicos" que permita aumentar o recrutamento de pessoal especializado.

Teresa Maia, por seu turno, manifestou-se otimista acerca do futuro e referiu que "o Plano de Recuperação e Resiliência pode permitir a implementação de medidas que se aguardam há muito tempo".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG