O Jogo ao Vivo

JN North Festival

Nunca é tarde para se ser louco à moda do Porto de Zen

Nunca é tarde para se ser louco à moda do Porto de Zen

Há coisas que não mudam, nem que passem 30 anos. Rui Silva, aka Gon, vocalista dos Zen, continua a ser um animal de palco. Eles, a maior banda de culto da Invicta nos anos 90, continuam a preencher recintos com alma e um punk rock cru que já é raro. No primeiro de três dias do JN North Festival, ainda antes da atuação de Linda Martini e Ornatos Violeta, os protagonistas foram os Zen.

Falar de Zen é falar de Gon, um dos últimos animais de palco do século passado. Os penteados insólitos ficaram nos anos 90, mas a energia com uma grande dose de loucura está toda lá. Protagoniza danças deformadas, faz poses sexuais, fuma enquanto canta, mutila-se com o microfone, arregala os olhos e está em constante interação com a linha da frente do público. Os vocalistas modernos usam guitarra. Gon usa Heineken de garrafa. "Puorto!", gritou a abrir o concerto de cerca de uma hora que passou por quase todos os temas do disco The Privilege of Making The Wrong Choice, o único da banda. Houve outro, Rules, Jewels, Fools, sem Gon, vetado ao esquecimento.

Os Zen apresentaram-se na formação original de 1991 sem Jorge Coelho. No final, o tema mais conhecido,"U.N.L.O." pôs toda a gente a dançar. Supostamente era a última, mas os verdadeiros fãs sabiam que ainda vinha aí "11 A.M.", outro emblema musical dos portuenses, com que acabaram o concerto. Pelo meio houve tempo para Helter Skelter, gravada em 1968 pelos Beatles.

Festa hippie com Paus

Antes de Zen houve uma ode à boa percussão. Os Paus, ou o quarteto de bateria siamesa, ou a banda que consegue produzir uma das melhores distorções nacionais sem usar guitarra, deram uma autêntica aula de como o rock consegue ser dançável e intenso ao mesmo tempo.

Depois de um início mais jazzístico e com pouco baixo, embora de sintetizador incisivo, o concerto acabou com uma espécie de festa hippie onde cabeças deambulantes pululavam da esquerda para a direita ao ritmo das quatro baquetas, de forma incessante, com o riff em distorção a vir do baixo e um jogo de luzes psicadélicas a fazerem a comunhão entre o Porto e a banda lisboeta. Foi o primeiro momento do festival em que o público se deixou levar, conduzido pela batida disforme.

O tribalismo indissociável dos Paus atinge píncaros em temas como "Luzia Veneno", do último álbum, o Yess, que o conjunto lançou em 2020. O disco esteve na prateleira nos últimos dois anos e pouco saiu à rua por causa dos cancelamentos da pandemia. A meio do espectáculo, o baterista Quim Albergaria dedicou a "Mo People", do álbum Mitra (2016), àqueles que no meio cultural mais sofreram com as sucessivas paragens: "Esta é para todos os técnicos que estiveram durante a pandemia sem trabalhar. É pá, vão a concertos, apareçam sempre, consumam cultura que esta gente precisa de trabalhar". O outro baterista é Hélio Morais, que voltaria a subir ao palco com Linda Martini.

Festivais de volta

Antes de Paus foi a vez do duo vimaranense Paraguaii, de Giliano Boucinha e Zé Pedro Correia, a que se juntou um baterista. O space rock destes Paraguaii é de calibre elevado, o que ao fim do dia proporcionou a viagem musical psicadélica de longos e envolventes instrumentais que guiaram os poucos melómanos que preenchiam o recinto.

As honras de abertura estiveram a cargo de S. Pedro, o projeto a solo de Pedro Pode. O JN North Music continua hoje com um dia dedicado à dança e o meio cultural afirma-se num regresso definitivo depois de dois anos de adiamentos e cancelamentos com quebras próximas de 100%.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG