
Foto: Stephen Andrews/Unsplash/DR
Sem nos darmos conta, desenvolvemos hábeis capacidades de negociação e resolvemos problemas em conjunto. A rua é o espaço da criatividade e uma escola que forma miúdos felizes
Folhear álbuns da infância é sempre um exercício de espanto e de riso, mas quando me encontro com as minhas memórias há uma fotografia que se destaca inequivocamente. Tenho umas jardineiras de fazenda que ainda hoje me fazem comichão, um cabelo à tigela desgrenhado até mais não, um cabrito minúsculo ao colo e um sorriso muito firme. Numa imagem resumem-se horas infinitas de casas desenhadas com pedras na terra, sopas feitas com ervas, arranhões nas pernas e uma cabeça partida a saltar num monte de feno. Em suma, uma liberdade sem tamanho vivida na rua.
São conhecidas as vantagens, para o corpo, de brincar à vontade ao ar livre. Experimentam-se saltos e acrobacias impossíveis dentro de casa, o sistema imunitário sai reforçado e combate-se o sedentarismo e a obesidade, doença silenciosa dos tempos modernos. A rua tem, além disso, muito a ensinar-nos sobre competências sociais. Os estímulos para a imaginação e a criatividade não têm limites. Os mesmos metros quadrados num dia são campo de futebol, noutro pista de velocidade para carrinhos de rolamentos, noutro cidade imaginária em que se montam negócios, escolas e cabeleireiros sem noção das tendências da moda mas capazes de dar tesouradas reais.
Na rua cruzamo-nos a todo o momento com gente nova, mesmo que na base haja um gangue estável que identificamos como porto seguro. O outro surge-nos de muita forma, desafia-nos e obriga-nos a perceber e respeitar as diferenças. Sem nos darmos conta, desenvolvemos hábeis capacidades de negociação. É preciso chegar a consensos sobre a agenda do dia (porque decidir a que se brinca é um assunto sério) e sobretudo resolver conflitos quando há interpretações muito próprias das regras do jogo.
Se há momentos de tensão e competição, há igualmente espaço para a cooperação. Não teria conseguido subir a algumas árvores sem dicas e literais empurrões. Não teria feito os quilómetros de regresso a casa, depois de um furo no pneu dianteiro da bicicleta, sem a ajuda do grupo de amigos. Não teria dado alguns mergulhos na ribeira se não nos uníssemos para despachar tarefas e ficarmos livres no resto do tempo.
Dizem os estudos que nos mexemos menos e estamos mais enfiados em casa. Temos receio que os miúdos se magoem, tememos o frio do inverno, diabolizamos o contacto com estranhos. Precisamos de nos despir de medos tolos. A rua é uma escola que forma crianças felizes.

