
Centro de visitas de Castleton, no Peak District, Inglaterra.
Luísa Marinho/DR
Em Castleton, no Parque Nacional Peak District (Inglaterra), fui descobrir Randolph Douglas, o Grande Randini, que ao fim e ao cabo acabou por se dedicar a coisas (aparentemente) pequenas.
Na pequena vila medieval de Castleton, a principal atração turística é o Peveril Castle, um castelo do século XI em ruínas. A par disso, e a dar conta da história mineira de Derbyshire, há várias grutas também visitáveis. Mas não foi o castelo (fechado temporariamente), nem as cavernas, que não cheguei a visitar devido à chuva, que me surpreenderam à chegada.
O centro de visitas serviu como primeiro contacto com a vila e abrigo do mau tempo. Misto de loja de souvenirs e museu de generalidades sobre a vila e o Peak District, o primeiro Parque Nacional do Reino Unido (fundado em 1951) chamou-me a atenção, encostado a uma parede discreta, um armário fechado a portas de vidro. Lá dentro, estavam várias miniaturas de casas, pousadas ao lado, sem aparente lógica, de algemas e outros objetos de metal. A fechar essa estante repousava a edição de 1920 do livro "Magical rope ties and escapes", do famoso mágico escapista Harry Houdini. Voltei ao início. Só então reparei nas legendas: 1 - Anne Hathaway"s Cottage (miniatura da casa da família daquela que seria a mulher de Shakespeare); 2 - Miniatura de uma cottage numa caixa de música, 3 - Speedwell Mine (miniatura de uma mina de chumbo em Derbyshire); 4 - Algemas; 5 - "Finger clamp" (não consegui perceber o que é nem para que serve); 6 - Mais algemas; 7- Poster desenhado à mão por Randolph Douglas. Neste, mesmo acima do livro de Houdini lê-se "The Great Randolph - The only act of its kind in the world - The living mummy (O Grande Randolph - O único espetáculo do género no mundo - A múmia viva). Na imagem, está o desenho de um sarcófago que remete para as múmias egípcias, fechada a muitos cadeados.
Provavelmente Randolph Douglas, o autor de tudo o que está neste armário, e que se intitulava como Grande Randini, nunca terá tirado do papel este que seria um espetáculo de escapismo, inspirado no seu ídolo Houdini, que pela primeira vez viu em palco quando era criança. Ainda na adolescência, ficaram amigos, trocando correspondência, e Douglas, filho de ourives e com fértil criatividade, até contribuiu para algumas ilusões do grande mágico. Randolph, que por razões de saúde nunca conseguiu ser escapista, seria um tipo interessante, um construtor de pequenos mundos e ilusões.
Nascido em 1895 perto de Sheffield, mudou-se para Castleton e casou-se com Hetty, em 1926, ano em que viria a morrer Houdini. Colecionador, artista, artesão, serralheiro, acabou por abrir na sua própria casa The Douglas Museum - The House of Wonders, uma espécie de gabinete de curiosidades, tão ao gosto da época. Inaugurou exatamente em 1926 e fechou já muito depois da sua morte, que aconteceu em 1956, pois a viúva continuou o projeto até falecer, em 78. Em Castleton, o que sobrou do museu está nesta estante, mas todo o espólio foi doado ao Buxton Museum (o que se vê aqui é por empréstimo). A memória do Grande Randini foi-se perdendo, mas ficaram estes mundos encaixados num armário, à espera que alguém se deslumbre com o charme das coisas mínimas
