
Não é por nostalgia que penso nos desenhos animados que, sem me aperceber, me ensinaram muito sobre o mundo e as relações humanas. É, principalmente, porque a primavera já não tarda.
Sábados e domingos de manhã, era sagrado: acordar bem cedo, correr para a sala, ligar a TV e sentar-me no sofá a ver os desenhos animados que me faziam viajar por vários mundos. Estávamos nos anos 1980 - sem telemóveis, Internet ou redes sociais, nem sequer um computador em casa. O meu singelo quotidiano, entre casa e escola, poucos amigos e muito menos brincadeiras na rua, abria-se a outros universos, a aventuras inimagináveis, à fantasia, mas também a outras realidades que só podia sonhar viver. E foram a porta de entrada para a literatura.
Só muito mais tarde descobri que alguns dos meus desenhos animados favoritos eram adaptações de grandes obras literárias. Como acontece com "A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia", da primeira mulher Nobel da Literatura, Selma Lagerlöf, em 1909. Entre os nove e os 11 anos, acompanhei as peripécias de Nils, menino desobediente, que desafiou os pais e foi transformado numa miniatura por um duende. Acaba por viajar às costas do seu pato, que tanto atormentava, seguindo um bando de gansos bravos na sua migração para a Lapónia. De menino que maltratava os animais, passou a compreender a sua língua e descobriu a amizade e o respeito, tudo entre viagens cheias de aventuras e muitos mitos escandinavos.
Foi também por esta altura que outra série animada me fazia colar ao televisor. A voz de Jorge Palma introduzia a versão portuguesa de "O vento nos salgueiros", com a melodia inesquecível de Keith Hopwood e Malcolm Rowe. Esta animação britânica em stop-motion segue a vida de vários animais antropomórficos que habitam a floresta. Escrito pelo escocês Kenneth Grahame, "Wind in the willows" é uma fantasia poética ao estilo bucólico que espelha as relações humanas. Ali há amizade e amor. Mas também se aborda os excessos dos ricos e privilegiados, e de como a sociedade os normaliza com um encolher de ombros. Não falta tributo ao gosto pelo conhecimento e, sobretudo, louva-se a empatia. Quando foi editado, em 1908, e apesar das más críticas, teve um impacto estrondoso nos leitores, que perdura no tempo. Foi a partir de um dos capítulos que Syd Barrett nomeou o primeiro álbum dos seus Pink Floyd, "The piper at the gates of dawn".
A. A. Milne, autor de "Winnie the Pooh", outro clássico da infância, escreveu sobre a obra: "Não se discute "O vento nos salgueiros. O livro é um teste ao caráter. Não podemos criticá-lo, porque é ele que nos critica". E agora que o inverno já não tarda a passar, apetece voltar a ler aquelas primeiras linhas, que apresentam a Toupeira a fazer as limpezas de primavera. Cansada de tanto trabalho e pó, vai explorar o mundo fora da toca para descobrir uma nova vida, cheia de aventuras e emoções.
