
Foto: Mario Tama/Getty Images North America/Getty Images via AFP
Ou como a verdade empírica pode ser um sítio social de desterro para quem se atreve a ver o filme da primeira-dama dos EUA
Sentia-me - e aqui peço a vossa indulgência para uma certa dose de perplexidade fenomenológica - muito desconcertado perante a descoberta de que o consenso à volta da mesa de jantar não era apenas absoluto, era de uma ferocidade termodinâmica. Era um ódio unânime, cristalino, pletórico e flagicioso dirigido a "Melania". Mas o que realmente estranhei foi o sintoma social terminal: ninguém tinha visto o filme que todos estavam a incinerar. Havia ali um tal fervor crítico preventivo, uma vontade tão férrea de odiar o filme a priori que o simples ato de o visualizar parecia uma redundância injuriante perante a pureza do preconceito coletivo.
Eu próprio, sentado ali com a espinha irritantemente hirta de quem detém um trunfo ético, sentia-me o vértice mais isolado dos seis: tinha cometido a audácia de admitir, ab initio, que não tinha visto o filme, mas que fazia absoluta questão de o ver antes de me permitir o luxo de o obliterar.
Havia uma ironia lancinante na minha posição: eu era o meta-chato da mesa, o tipo que interrompe a catarse coletiva do ódio para sugerir que a opinião deve, por imperativo deontológico, ser precedida pelo objeto que a motiva. Enquanto os outros cinco debitavam uma comunhão telepática total, eu sentia-me simultaneamente superior e patético.
Esta dinâmica de grupo operava através de uma linguagem de sinais culturais tão codificada que a minha insistência na verificação empírica soava como um anacronismo rústico, quase ofensivo. Estávamos todos imersos num estado de hiper-reflexividade tão aguda que o filme em si era apenas um MacGuffin para a performance da virtude - e a minha postura de "ver-para-saber" parecia uma encenação de rigorismo neurótico.
O ódio unânime era o adesivo social da mesa, mas o meu desejo de "informar toda a gente da minha opinião posterior" era só um escudo contra o vazio pneumático da conversa: o medo factual de que, depois de visto o filme, o ódio imaginado não estivesse à altura do ódio real.
A conversa mudou, política, futebol, mau tempo, o gozo de haver uma empregada de limpeza portuguesa nos ficheiros Epstein (o gozo era o sonho: ela querer casar com o mordomo do Epstein) e não se falou mais da Melania.
No dia seguinte fui ver o filme. E informei o grupo no WhatsApp.
Foi um erro tático. O meu triunfo pirotécnico - a minha honestidade - foi a infelicidade: não fui, como imaginava, o herói da verdade factual, fui o mártir da chatice, um tipo que desperdiçou 90 minutos da vida para poder odiar com fundamento técnico algo que todos já odiavam por instinto tribal natural. Enquanto os outros se banhavam no calor confortável do ódio puramente performativo, eu sustentava uma solitária repulsa analítica, sentindo-me como o único gajo num hospício que insiste em discutir a composição química do branco das paredes que nos levam à loucura. Restou-me, então, a descoberta: a veracidade empírica é um deserto extraordinariamente mal frequentado.
