
Telavive
Foto: Shai Pal/Unsplash/DR
"Tel Aviv" ajudou a plantar a semente de um dia aterrar em Telavive. Para perceber se os relatos condizem: uma cidade tolerante nos costumes e nos credos, Israel no seu melhor
Há tanta coisa que começa com uma canção, e assim é nesta espécie de história. Uma história que começa no outono de 1981, ao ouvir o primeiro álbum da minha banda favorita, os Duran Duran. Decorando as melodias e as poses, apreendendo a fonética do que o vocalista Simon Le Bon cantava, num inglês que eu, aos dez anos, mal enxergava. A última canção do disco dispensava o esforço de fixar palavras - "Tel Aviv", faixa instrumental, tinha guitarra elétrica que se contorcia de uma forma que abria paisagens misteriosas; tinha uma orquestra dinâmica que sugeria distância e exotismo; tinha uns cânticos sem palavras que Simon, à época, descrevia como "lamentos das montanhas libanesas". Um tema, enfim, que na sua propulsão moderna, futurista e eletrónica, desenhava um presente e dias vindouros tão cosmopolitas quanto otimistas, abertos à diversidade. Até o "Tel" do título apontava para a frente, um admirável mundo novo de telecomunicações, telefones, telexes.
Só muito mais tarde confirmei que o "Tel" em Tel Aviv (adote-se, doravante, a forma portuguesa Telavive) nada tem a ver com alta tecnologia - trata-se, sim, da palavra que descreve montes artificiais de média dimensão, presentes sobretudo nos territórios que bordejam o Mediterrâneo, especialmente a leste, formados pelos detritos acumulados ao longo dos séculos por sucessões de povoados.
É altamente provável que Simon Le Bon soubesse tudo isto: em 1978, com 20 anos, ele passou uma temporada a trabalhar como voluntário num kibutz (comunidades coletivistas autónomas, originalmente viradas apenas para a agricultura) no deserto Negev, no sul de Israel. Os kibutzim são o espírito socialista e sionista no seu melhor e mais concreto. São a espinha dorsal, o ato utópico mas palpável que erigiu a nação israelita, crucial no germinar em terra árida. Uma espinha hoje em dia em risco, quer pelo terrorismo islâmico (a chacina de 7 de outubro de 2023 teve múltiplos kibutzim como alvo), quer pelo governo central, de extrema-direita.
Não sendo causa única, "Tel Aviv" ajudou a plantar a semente de um dia aterrar em Telavive. Para perceber se Telavive é igual aos relatos que me chegam desde sempre: uma cidade aberta, livre, tolerante nos costumes e nos credos, Israel no seu melhor e mais pulsante. Há de acontecer - nem que seja preciso esperar que a sanha antissemita, tão chique e bem-parecida nestes tempos, regresse ao esgoto.

