
National Cancer Institute / UnSplash
Os neurocirurgiões precisam de ter mãos firmes e cabeça fria. Agora estão a receber ajuda de investigadores europeus para combater um tipo fatal de cancro do cérebro chamado glioblastoma.
A empresa de biotecnologia dinamarquesa FluoGuide liderou um projeto de investigação que recebeu financiamento da UE para identificar melhor o glioblastoma, para que os cirurgiões o possam remover mais facilmente. A FluoGuide desenvolveu um corante químico fluorescente que é injetado nos doentes antes da cirurgia.
Ajuda em tempo real
O composto fixa-se nas células cancerígenas agressivas através de uma enzima que as células cancerígenas utilizam contra o organismo. Quando um médico ilumina o tecido cerebral com uma luz infravermelha durante a operação, as células cancerígenas com esta enzima ficam fluorescentes.
"Essencialmente, iluminamos o cancro e ajudamos o cirurgião a removê-lo em tempo real", afirma Morten Albrechtsen, diretor executivo da FluoGuide.
Não existe cura para o glioblastoma, que é o tipo de tumor cerebral maligno mais comum. Este tipo de cancro está a aumentar em muitos países e a sobrevivência dos doentes é, em média, de cerca de 15 meses.
Na Europa, cerca de 15 000 pessoas morrem de glioblastoma anualmente. O projeto financiado pela UE, chamado INSTAGLOW, liderado pela FluoGuide decorreu durante dois anos e meio até ao final de 2022. A investigação demonstrou que a descoberta da empresa é segura para os doentes.
A FluoGuide utiliza um sistema baseado em trabalhos realizados há décadas por académicos do Hospital Universitário de Copenhaga – Rigshospitalet – e da Universidade de Copenhaga.
Produto químico brilhante
Uma parte crucial da tecnologia depende de uma enzima chamada uPAR (urokinase-type plasminogen activator receptor), que significa recetor do ativador do plasminogénio do tipo urocinase. Os tumores utilizam as enzimas uPAR como uma catana molecular, cortando as células saudáveis para dar lugar a um cancro em crescimento.
A FluoGuide desenvolveu uma proteína ligada a um fluoróforo, uma substância química que brilha quando atingida pela luz. O conjunto proteína-fluoróforo é injetado no doente, circula no organismo e liga-se às células cancerígenas uPAR.
Durante a cirurgia, é direcionada uma luz infravermelha para o tecido cerebral e revela onde se encontra o fluoróforo e, por conseguinte, o uPAR está no cérebro.
A enzima é mais abundante na fronteira entre o tumor e o tecido saudável, dando aos cirurgiões um guia visual para saber onde termina o cancro e começa o tecido saudável. Isto permite-lhes desviarem-se das partes não cancerígenas do cérebro.
O produto foi testado em 36 doentes com cancro do cérebro agressivo na Dinamarca e Suécia.
Os passos seguintes consistem em testá-lo em mais doentes na Europa e nos EUA, quando são submetidos a cirurgia para o tratamento do glioblastoma. O sucesso neste domínio permitiria que o produto fosse aprovado para utilização generalizada.
Ressonância magnética melhorada
Outra estratégia para combater o glioblastoma é a introdução de vírus especiais que procuram e destroem o tumor.
Embora os hospitais estejam a aproximar-se da utilização dos chamados vírus oncolíticos, estes ainda não foram aprovados como tratamento. Um grande desafio é avaliar os efeitos desta terapia no cérebro.
A ressonância magnética normal baseia-se nas diferenças das propriedades magnéticas da água nos tecidos e pode ser utilizada para “ver” um tumor cerebral. No entanto, a ressonância magnética tem limitações quando se trata de revelar alterações precoces num tumor durante o tratamento.
Or Perlman, engenheiro biomédico na Universidade de Telavive em Israel, trabalhou com investigadores na Alemanha e nos EUA para adaptar a ressonância magnética a este objetivo, no âmbito de um segundo projeto financiado pela UE. Denominada OncoViroMRI, a iniciativa terminou em junho de 2023, após 44 meses.
Em vez de se basear no teor de água, a abordagem de Perlman baseia-se noutras moléculas para gerar uma imagem superior de um tumor no cérebro.
O plano final é injetar os doentes com os vírus que matam o cancro e depois utilizar esta abordagem para monitorizar o efeito do vírus no cancro. Pensa-se que os vírus também incitariam as células imunes a atacar as células cancerígenas infetadas.
"A ideia era criar um mapa que mostrasse as células que estão a morrer no cérebro, revelando assim quais as regiões do tumor que respondem ao vírus", afirmou Perlman.
O trabalho dos investigadores no âmbito da OncoViroMRI foi realizado principalmente em ratos de laboratório. Os médicos participaram no projeto com o objetivo de ajudar a tirar conclusões para o tratamento dos doentes.
Rapidez na ordem do dia
O desafio atual para cientistas como Perlman é tornar a imagiologia mais rápida. Para tal, é necessária inteligência artificial para decifrar os dados da ressonância magnética para os transformar num mapa legível que os médicos podem utilizar para monitorizar o progresso dos doentes.
Uma das vantagens é que não foi necessário alterar o equipamento de ressonância magnética, pelo que, futuramente pode ser utilizado em procedimentos hospitalares normais.
"O próximo passo é estudar um pequeno número de doentes com tumores para determinar se conseguimos monitorizar o seu cancro", declara Perlman.
As estratégias desenvolvidas ao abrigo da OncoViroMRI e INSTAGLOW devem ser aplicáveis a outros tipos de cancro.
Em Copenhaga, a FluoGuide demonstrou que o seu produto novo pode funcionar em doentes com cancro do pulmão. O cancro da mama nas mulheres e o cancro de cabeça e pescoço também estão no seu radar.
O produto da empresa foi testado em 16 doentes com cancro do pulmão e estão a ser realizados ensaios clínicos do corante em doentes com cancro de cabeça e pescoço.
"Até agora funcionou muito bem para o cancro do cérebro", afirma Albrechtsen.
A investigação neste artigo foi financiada através da MSCA (Marie Skłodowska-Curie Actions). Se gostou deste artigo, considere partilhá-lo nas redes sociais.
Combater o cancro
A Europa é responsável por um quarto dos casos de cancro no mundo, representando 10% da população mundial. Em 2020, 2,7 milhões de pessoas foram diagnosticadas com cancro na UE e 1,3 milhões de pessoas morreram da doença. A Missão Europeia contra o Cancro visa melhorar as vidas de mais de 3 milhões de pessoas até 2030 através de uma série de ações, incluindo o tratamento. Enquanto componente importante do investimento da UE na investigação e inovação do cancro, a Missão aprofundará a compreensão da doença, centrar-se-á na prevenção e no diagnóstico precoce e melhorará a qualidade de vida dos doentes durante e após o seu tratamento. Em conjunto com a Missão, o Plano Europeu de Luta Contra o Cancro está a abordar todo o percurso da doença desde a prevenção até à qualidade de vida. Permitirá a partilha de conhecimentos e recursos em toda a UE, ajudando os investigadores a trocar resultados e o pessoal médico e os hospitais a explorar fontes comuns de dados.
Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE.

