
As palavras desvendada pelos dois estudantes
Desafio do Vesúvio
Um desafio à americana, lançado na meca da inovação Silicone Valley, pode contribuir para a revelação dos segredos filosóficos gregos de 1800 papiros enterrados há quase dois mil anos pelas cinzas da erupção do Vesúvio que cobriram Pompeia e a estância balnear vizinha dos ricos romanos, Herculano.
Um estudante americano e um egípcio a fazer doutoramento na Alemanha são os vencedores do "Desafio do Vesúvio", que tem um prémio total de um milhão de dólares. Separadamente, os dois estudantes conseguiram revelar mais de letras de um dos 1800 papiros de Herculano, descobertos para a humanidade em 1752, após quase 1700 anos enterrados pelas cinzas da erupção do Vesúvio, no ano 79 depois de Cristo (d C), em Nápoles, no sul de Itália.
Os papiros fazem parte da biblioteca do filósofo epicurista Filodemo de Gádaros, que será o autor de pelo menos 40 desses rolos carbonizados de filosofia, e que morreu ainda cerca de 40 anos antes de cristo. Estariam guardados na "Casa dos Papiros", uma "vila" na cidade de Herculano, uma região balnear para romanos ricos, no Golfo de Nápoles, que foi abafada pelas cinzas da erupção do Vesúvio, a par de Pompeia, o exemplo mais conhecido, no ano 79.
Com a ajuda da Inteligência Artificial (IA), os vencedores do desafio revelaram mais de 10 letras de um dos rolos carbonizados sem os abrir ou danificar. Entre as várias letras, foi identificada a palavra grega "πορφύραc", que significa púrpura, uma cora associada à realeza na Grécia antiga.
Este avanço, embora assente em anos de investigação na mesma linha, deixa a comunidade cientifica mais perto de conseguir ler passagens completas ou, até, no futuro papiros inteiros impossíveis de ler até agora.
"É um momento muito importante, porque estamos a provar a toda a comunidade mundial que os rolos são legíveis", disse Brent Seales, cientista computacional da Universidade do Kentucky, nos EUA. "Sabíamos que se conseguíssemos ler um, então seria possível ler todos os outros usando o mesmo método ou algum método amplificado", acrescentou, em declarações à revista "National Geographic".
Papiro com 1500 anos desenrolado virtualmente em 2015
Seales liderou uma investigação que permitiu, em 2015, comprovar que era possível ler rolos de papiros sem os abri e destruir. Aquele investigador norte-americano usou técnicas de raio-x e tomografia, como nas TAC, associada a análise de computador para revelar os escritos do papiro de Ein Gedi, descoberto no Mar Morto, ao largo de Israel, e criou uma imagem em 3D do documento.
Ao conseguir ler o papiro, com cerca de 1500 anos, sem o abrir, a equipa liderada por Seales provou que era possível desenrolar virtualmente e ler pedaços de história carbonizados ou empedernidos pelo passar dos anos.
Este desenvolvimento esteve na génese do “Desafio do Vesúvio”, embora para os papiros de Herculano o desafio seja maior. No caso dos rolos de Ein Gedi, a tinta tinha uma mistura metálica, que permitiu identificar as letras, que se destacavam no raio-x. No caso dos papiros encontrados nas cinzas do Vesúvio, a tinta usada tem base de carvão, dificultando o contraste com o papiro, também de origem vegetal.
Os investigadores não se detiveram e usaram digitalização de alta resolução, que revelou áreas em que a tinta alterou ligeiramente a forma e a textura das fibras do papiro. Seales e a equipa da Iniciativa da Restauração Digital devolveram e treinaram então um modelo de aprendizagem automatizado para detetar estas diferenças subtis nos pergaminhos.
A equipa concluiu que precisava de ajuda para avançar e é aqui que surge o "Desafio do Vesúvio". Seales juntou-se a alguns investidores de Silicon Valleu e colocou online os dados, o código e os métodos online, acessíveis a qualquer pessoa no Mundo. Em março, a equipa revelou milhares de imagens 3D de dois dos rolos, assim como um algoritmo de aprendizagem automática treinado para detetar letras e símbolos invisíveis nas camadas do papiro.
Motivados pelo primeiro de um milhão de dólares, dois competidores conseguiram extrair texto: Luke Farritor, um estudante de 21 anos da Universidade de Nebraska-Lincoln, e Youssef Nader, de 26 anos, aluno de doutoramento na Universidade Freie, em Berlim, na Alemanha. Farritor, o primeiro a revelar texto, ganhou 40 mil dólares, enquanto Nader embolsou 10 mil.
Está ainda em jogo o grande prémio de 700 mil dólares, para a primeira pessoa ou equipa que conseguir revelar pelo menos quatro passagens separadas dos dois pergaminhos disponibilizados, até o final de 2023. Cada passagem deve conter pelo menos 140 caracteres de texto contínuo, com no máximo 15% dos caracteres ausentes ou ilegíveis.
Os participantes do desafio podem encontrar tudo o que precisam online, desde a história dos pergaminhos, dados para download, algoritmos e tutoriais. Embora o concurso esteja aberto a qualquer pessoa, o trabalho técnico que implica está a atrair especialistas em ciência computacional e aprendizagem automática.
Os concorrentes estão a ajudar o projeto a avançar, "desembrulhando" virtualmente secções adicionais de papiros e a trabalhando para melhorar o modelo de aprendizagem automática, fornecendo exemplos de treino e os segmentos que vão sendo desvendados um pouco por todo o lado.
A partir daqui, o modelo de aprendizagem automática deverá continuar a melhorar e a revelar letras adicionais. Estes esforços podem abrir caminho para futuros trabalhos de escavação em Herculano, onde alguns especialistas acreditam que ainda mais pergaminhos estão enterrados.
Um desafio com 275 anos
Os papiros de Herculano foram encontrados em 1752, pouco depois de uma agricultor descobrir vestígios da cidade enterrada durante quase 1700 anos. Durante 275 anos, foram feitas várias tentativas para os desenrolar, usando água de rosas, e outras mistelas e mezinhas. Algumas das primeiras tentativas, e outras que se seguiram, foram mais invasivas. Um artista, identificado como Camillo Parderni, cortou os pergaminhos ao meio e foi copiando as partes legíveis do texto à medida que ia removendo camadas.
O processo, que levou à destruição de centenas de pergaminhos, foi usado, com mais ou menos equipamento, durante os séculos XVIII e XIX, permitindo aos conservadores copiar algumas palavras. À medida que desenrolavam os papiros, os restauradores foram colando os pedaços em folhas de papel ou de cartão. Um método que tinha o inconveniente de "apagar" o que ficava na parte de trás, e que começou a ser corrigido no século XX por especialistas da biblioteca de Nápoles, que criara imagens de ambos os lados dos papiros.
Muitos destes rolos carbonizados foram inutilizados ao longo dos anos. Os cerca de 1500 que ainda restam devem conter, segundo os cientistas, informações pertinentes sobre uma fase muito ativa em termos intelectuais e artísticos, a da Grécia Antiga, que ajuda a explicar o sucesso do desafio. “Quando as coisas estavam um pouco frustrantes e não estavam a correr bem, senti que não era capaz de desistir porque eu estava muito curioso – preciso muito de saber o que está escrito” nos papiros, desabafou Youssef Nader.

