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Cientistas ressuscitam células de animais mortos e baralham definição de morte

Cientistas ressuscitam células de animais mortos e baralham definição de morte

Investigadores da Universidade de Yale, nos EUA, restauraram a circulação e a atividade celular em órgãos vitais de porcos uma hora após a morte dos animais. A investigação levanta questões éticas mas também abre a porta a novos métodos de transplante e preservação de órgãos e até na reanimação de vítimas de crises cardíacas fatais.

É uma experiência que desafia as leis da vida e as convenções sobre a morte. O estudo, conduzido por investigadores da Universidade de Yale, nos EUA, desafia a ideia de que a morte é irreversível após a paragem do coração. Os cientistas que já tinham reavivado cérebros de porcos, em 2019, questionado a ideia de que a morte cerebral é definitiva, voltam a baralhar a definição de morte com uma investigação que reavivou órgãos vitais de porcos uma hora após morrerem.

Quando o coração pára de bater, o fluxo sanguíneo é cortado e dá-se início a um processo chamado isquemia. O oxigénio e os nutrientes deixam de chegar aos tecidos e as células começam a morrer, iniciando-se um caminho mortal que os cientistas consideravam irreversível. Esta nova investigação questiona essa ideia.

"A morte das células pode ser parada", observou Nenad Sestan, professor de neurociências na Escola de Medicina de Yale e um dos autores do estudo. "Restauramos algumas funções das células em vários órgãos que deveriam estar mortos", acrescentou, em conferência de imprensa.

Experiência desafia convenções atuais sobre a morte

O estudo desafia as convenções atuais sobre a morte, entendida não como um momento mas como um processo, e levanta questões éticas relevantes e desafia a comunidade científica a encontrar uma forma comum de declarar o momento da morte.

"As pessoas tendem a focar-se na morte cerebral, mas não há muito consenso sobre quando ocorre a morte cardíaca", observou Arthur Caplan, bioeticista da Universidade de Nova Iorque. "Esta investigação ressalva bem essa questão", acrescentou, em declarações à revista "Nature", onde foi publicado o trabalho, que obrigará a adaptar a definição legal de morte à evolução da medicina.

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A descoberta é "extraordinária" tendo em conta a rapidez da decomposição após a morte, observou Zvonimir Vrselja, um dos autores do estudo. Minutos após a paragem do coração, o corpo fica privado de oxigénio e as enzimas começam a digerir as membranas das células, levando a uma perda rápida da integridade estrutural dos órgãos.

A investigação está ainda numa fase precoce, experimental, muito distante de aplicação ou utilidade em seres humanos. Pode, no futuro, ajudar a prolongar a vida de pessoas cujo coração parou ou salvar vítimas de enfarte do miocárdio. Esta tecnologia tem potencial, também, para mudar a forma como são colhidos e transportados os órgãos para transplante, aumentando o tempo em que estarão disponíveis para os pacientes.

Técnica similar à que tinham usado para reavivar cérebros em 2019

Os investigadores conseguiram estes resultados adaptando uma experiência feita em 2019. Há três anos, os mesmos investigadores usaram uma solução, denomina BrainEx, que injetaram no cérebro dos porcos para os reanimar. Demonstraram que alguns danos nas células cerebrais podem ser reversíveis após o corte do fluxo sanguíneo.

Seguindo a mesma linha, os cientistas criaram o OrganEx, um mecanismo que injetou uma solução que mistura o sangue do animal com 13 componentes, incluindo anticoagulantes. De acordo com o trabalho, publicado na quarta-feira na revista "Nature", os investigadores ligaram os porcos àquele mecanismo uma hora após terem morrido e injetaram o líquido no organismo dos animais. Constataram que a decomposição das células reduziu imediatamente e alguns órgãos retomaram a atividade, registando contrações no coração e atividade no fígado e nos rins.

"Os meus olhos explodiram", disse Brendan Parent, professor assistente de bioética na Escola de Medicina Grosseman, na Universidade de Nova Iorque. "O meu cérebro vagueou por todos os locais possíveis e imaginários dos últimos 20 ou 30 anos", acrescentou, num comentário à revista "Nature" sobre a descoberta. "É extraordinário", acrescentou Nita Farahany, neuroeticista na Universidade de Duke, em Durham, na Carolina do Norte.

O procedimento em detalhe

Os investigadores obtiveram os porcos numa quinta perto da universidade e acompanharam os animais durante três dias. Para realizar a experiência, sedaram os animais e ligaram-nos a um ventilador, antes de provocar uma paragem cardíaca, através de choques elétricos no coração.

Depois de confirmarem a falta de pulsação, retiraram os animais dos ventiladores. Uma hora após a morte, ligaram de novo os ventiladores e a anestesia; alguns porcos foram ligados ao OrganEx, outros não tiveram qualquer tipo de tratamento e os restantes foram ligados à ECMO, uma máquina que faz a oxigenação do sangue fora do corpo, substituindo a função pulmonar e cardíaca, e que salvou muitas vidas em Portugal na fase aguda da pandemia de covid-19.

Após seis horas, os investigadores notaram que a circulação voltou de forma mais efetiva nos porcos ligados ao OrganEx, comparado com os que estavam na ECMO ou sem qualquer tratamento. O oxigénio começou a fluir por todo o corpo dos animais ligados ao OrganEx e uma ecografia detetou atividade elétrica e contrações do coração. A função cardíaca não recuperou totalmente e não é claro o que os batimentos registados fizeram pelos animais, admitiu David Andrijevic, neurocientista em Yale e um dos autores do estudo.

Os investigadores notaram também que o fígado dos animais ligados ao OrganEx produziu mais uma proteína chamada albumina que os dos outros dois grupos. E que as células dos órgãos vitais dos porcos que receberam a solução responderam melhor à glucose, sugerindo que o tratamento reativou o metabolismo.

Movimentos involuntários da cabeça e do pescoço nos animais ressuscitados

Embora o OrganEx tenham ajudado a preservar algum tecido cerebral, os investigadores não observaram qualquer atividade cerebral coordenada indicativa de que os animais tivessem recuperado consciência ou senciência. No entanto, os animais mexeram involuntariamente a cabeça, o pescoço e o torso após receberem uma injeção do líquido contrastante usado para ajudar os cientistas a ver o cérebro dos animais após a experiência.

Os cientistas não encontraram uma explicação para estes movimentos, observando que é improvável que os impulsos tenham surgido no cérebro, dada a falta de atividade elétrica. É possível que os movimentos tenham surgido na medula espinhal, que pode controlar algumas funções motoras independentemente do cérebro.

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