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Cinco perguntas essenciais sobre sistemas alimentares resilientes e sustentáveis 

Cinco perguntas essenciais sobre sistemas alimentares resilientes e sustentáveis 

Os sistemas alimentares são altamente complexos e interligados. Se queremos que as nossas mercearias e cozinhas tenham um futuro com prateleiras cheias, teremos de ser capazes de tornar os nossos sistemas alimentares sustentáveis A revista "Horizon" abordou especialistas em sistemas alimentares com cinco perguntas essenciais.

O crescimento demográfico a nível global, a redução da pobreza rural, a proteção do ambiente, as alterações climáticas e a crise da biodiversidade são apenas alguns dos desafios que a agricultura enfrenta atualmente em todo o mundo. Mas podemos fazer muito para melhorar esta situação, repensando os sistemas de produção e distribuição de alimentos, para os tornar mais sustentáveis. Esta mudança deve refletir as necessidades, cultura e condições locais, dizem os especialistas.

Até agora, os planos para mudar a indústria alimentar eram feitos numa base setorial, por exemplo, através da agricultura, educação e saúde. Mas esta abordagem não reconhece as interligações entre a alimentação, a saúde e o ambiente. É necessária uma abordagem sistemática à mudança.

Estas interligações devem ser reconhecidas para se conseguir um "planeamento eficaz e uma implementação bem-sucedida das políticas", segundo Tom Arnold. Arnold preside o Grupo de Peritos de Alto Nível da Comissão Europeia sobre como dados científicos e técnicos comprovados podem apoiar melhor a elaboração de políticas para sistemas alimentares sustentáveis.

Sistemas alimentares

A chave para reverter esta abordagem fragmentada é ter uma visão de "sistemas alimentares". Procura identificar, analisar e avaliar o impacto e as reações dos diferentes atores, atividades e resultados do sistema. Isto, por sua vez, ajuda a identificar possíveis medidas para aumentar a segurança alimentar e nutricional.

Os sistemas alimentares são uma teia complexa de pessoas, instituições, atividades, processos e infraestruturas que se combinam para produzir, processar, transportar, servir e consumir os alimentos.

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O sistema alimentar não só influencia profundamente a nossa saúde corporal, mas também a saúde do nosso ambiente, economia e mesmo da nossa sociedade. Quando funciona bem, é o alicerce das nossas famílias, comunidades e países

Após a pandemia da covid-19 e a invasão russa da Ucrânia, é evidente que grande parte do sistema alimentar mundial carece de resiliência e é vulnerável ao colapso. Para abordar estas vulnerabilidades, os especialistas têm de considerar cinco questões essenciais sobre o sistema alimentar mundial.

1. Como é que os sistemas alimentares estão a influenciar e a ser influenciados pelas alterações climáticas?

Cada atividade dentro do sistema alimentar gera poluentes e emissões de gases de efeito estufa (GEE), que contribuem para as mudanças climáticas. A produção alimentar geralmente envolve o uso de maquinaria agrícola, fertilizantes industriais e embalagens, todas elas fortemente dependentes de componentes de combustíveis fósseis Muitos alimentos são depois refrigerados e percorrem longas distâncias do Prado ao Prato.

Além disso, a sobreprodução leva ao desperdício de grandes quantidades de alimentos. À medida que se decompõem, os alimentos geram metano, um potente GEE. Quando os alimentos são desperdiçados, as emissões geradas para produzir esses alimentos também são desperdiçadas.

As alterações climáticas afetam diretamente a segurança alimentar e nutricional, especialmente no Sul. Aí, muitos países estão a registar uma estação de crescimento mais curta, rendimentos agrícolas mais baixos e um decréscimo crescente da quantidade de terra arável.

O aumento das temperaturas pode levar à escassez de água, exacerbando a desnutrição. Milhões de pequenos agricultores (que são frequentemente a espinha dorsal da produção alimentar) estão a abandonar o negócio para serem substituídos por operações de grande escala que produzem alimentos para exportação e não para a população local.

2. O que é que os decisores políticos, cientistas e cidadãos europeus estão a fazer para transformar os sistemas alimentares?

A Estratégia do Prado ao Prato da UE para 2019 reconhece os desafios enfrentados pelos sistemas alimentares sustentáveis. O seu objetivo é assegurar que os benefícios da transição para uma economia verde sejam vivenciados por todos na sociedade.

"Este é um passo importante no desenvolvimento de políticas que reconhecem a complexidade dos sistemas alimentares juntamente com outros sistemas complexos como os ecossistemas, o bem-estar, a economia e as alterações climáticas", afirmou Roberta Sonnino, professora de Sistemas Alimentares Sustentáveis no Centro para o Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Surrey.

"Além disso, os Estados-Membros devem cumprir os compromissos assumidos na Cimeira de Sistemas Alimentares da ONU de 2021 e formar uma ligação vital entre as ações políticas globais e locais", acrescentou.

Os Estados-Membros devem também trabalhar mais estreitamente com o cidadão comum para melhorar a elaboração de políticas dos sistemas alimentares a nível regional.

As medidas específicas para transformar o sistema alimentar variam de um lugar para outro. Por exemplo, o sistema de planeamento, com os seus planos de uso do solo e leis de zonamento, poderia abrir novos caminhos para a mudança.

Esquemas inovadores de investimento e modelos empresariais baseados nas interações entre alimentação, saúde e inclusão poderiam emergir. 

As reformas de sustentabilidade foram uma grande parte da nova Política Agrícola Comum 2023-2027 por exemplo, e o Pacto Ecológico Europeu (PEE) reflete esta alteração à abordagem.

O PEE tenciona fazer da Europa o primeiro continente neutro do ponto de vista climático até 2050. Esta ambição abrange estratégias relevantes para o setor alimentar, como a estratégia do Prado ao Prato e a Estratégia da Biodiversidade para 2030.

Não obstante o progresso atual, é um trabalho complexo. Não existe um "método infalível", afirma Arnold. "Cada país tem o seu próprio sistema alimentar distinto, assente na sua base de recursos naturais, clima, padrões de produção, hábitos alimentares e história", explicou.

3. Qual é a melhor maneira de ligar medidas tomadas a nível global e local para transformar os sistemas alimentares?

Uma maneira é ligar estas iniciativas a nível nacional. "Precisamos de investimento dos governos nacionais para desenvolver a infraestrutura para sistemas alimentares sustentáveis, como mercados grossistas, mercados de agricultores, centros de distribuição de alimentos e outros canais de distribuição de alimentos", disse Sonnino. Esta ação encorajaria a cooperação entre os diferentes atores do setor.

Os governos nacionais e regionais também têm a capacidade de usar os seus poderes regulamentares e legislativos para criar um ambiente mais favorável às agendas transformadoras.

São também necessárias políticas dedicadas na área dos preços, dos impostos e da publicidade, combinadas com a definição de objetivos nacionais de descarbonização, para abordar situações em que os ambientes alimentares são concebidos apenas por considerações de mercado. Infelizmente, este é frequentemente o caso em áreas desfavorecidas.

"A Cimeira do Sistema Alimentar de 2021 concluiu que a transformação do sistema alimentar global exigirá um foco particular na ciência, investigação e inovação", disse Arnold. De acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, o objetivo é implementar mudanças através de financiamento, dados, governança e comércio, e apoiar sistemas alimentares mais saudáveis, mais inclusivos e sustentáveis.

"Isto inclui o desenvolvimento de boas práticas como os sistemas alimentares indígenas e o envolvimento de todas as pessoas, particularmente mulheres e jovens, povos indígenas, empresas e produtores", acrescentou.

4. Porque é difícil às cidades e às regiões abordar a relação entre alimentação, saúde e inclusão?

As cidades e as regiões operam dentro de um ambiente administrativo fragmentado, que ainda é dominado por formas de trabalho historicamente "em silos". Em tais circunstâncias, é difícil desenvolver políticas que iniciem e sustentem a mudança. Os elementos inovadores do sistema alimentar vêm-se, muitas vezes, a trabalhar isoladamente.

Uma coisa é pôr em marcha estratégias transformadoras que se baseiam nas ligações entre alimentação, saúde e inclusão, outra coisa é sustentar a agenda de transformação e atingir dimensões significativas.

Para possibilitar e apoiar as iniciativas locais, precisamos urgentemente de abordar a natureza fragmentada dos sistemas alimentares em múltiplos níveis de governação vertical (global-local) e horizontal (setorial e territorial)", afirmou Roberta Sonnino.

5. Há alguns exemplos de cidades ou regiões europeias que possam funcionar como modelos para a transformação dos sistemas alimentares?

Existem muitos exemplos de cidades europeias que estão a trabalhar para tornar o sistema alimentar mais saudável e mais inclusivo adotando uma abordagem "de base local". Com a ênfase nos "locais", o programa de Investigação e Inovação Programa de Investigação e Inovação Food 2030 tem sido fundamental para ajudar as cidades a desenvolver com base nas condições locais específicas para abordar as necessidades locais de forma inovadora Há sempre um equilíbrio a ser alcançado entre diferentes objetivos de sustentabilidade em diferentes escalas

Um mecanismo importante que pode ser empregue pelos governos locais ao nível das cidades é o Conselho de Política Alimentar, que envolve ativamente os cidadãos nas políticas alimentares e na governação local.

Os Conselhos de Política Alimentar estão presentemente bem estabelecidos em cidades como Viena, Amesterdão e Berlim, para citar algumas. Outras cidades estão a usar os seus poderes de aquisição de alimentos para desenvolver sistemas alimentares públicos que fornecem alimentos saudáveis a cidadãos vulneráveis como crianças em idade escolar, pacientes hospitalares e residentes de lares de idosos Isto significa trabalhar com os produtores de alimentos e com os serviços de restauração que respeitam o ambiente.

Um dos melhores exemplos a este respeito é Copenhaga, onde o processo de concurso é conduzido pelas Metas de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

"Mas não consigo indicar numa única cidade que tenha já conseguido reformar completamente o seu sistema alimentar", acrescentou Sonnino.

"Os exemplos de melhores práticas tendem a surgir dentro de áreas muito específicas e são, portanto, bastante raros e fragmentados. Neste momento faltam-nos exemplos de agendas de política alimentar completamente integradas - a nível urbano e não só", apontou.

Este impulso de generalizar os sistemas alimentares sustentáveis, irá causar um impacto positivo na criação de emprego e nas economias locais. Tornará as comunidades locais mais autossuficientes e sustentáveis, beneficiando eventualmente a todos nós 

A 23 de março de 2022, a Comissão Europeia anunciou que está a intensificar o apoio à ação global para transformar os sistemas alimentares através de oito Alianças Globais.

As preocupações com a segurança alimentar estão na vanguarda na Europa e em todo o mundo neste momento de preços elevados e problemas agudos de abastecimento. A situação pode tornar-se desastrosa.

O duplo golpe da pandemia de covid-19 e a invasão russa à Ucrânia atingiram o coração da segurança alimentar global e da resiliência. Ao envolver-se em oito Alianças Globais de Ação, a União Europeia irá trabalhar em conjunto com parceiros globais para melhorar a segurança alimentar.

A União Europeia irá envolver-se ativamente e apoiar ações que visem a produção de alimentos, no sentido de melhorar os indicadores dietéticos e nutricionais, a sustentabilidade, a resiliência e a produtividade de modo a ajudar a mitigar e evitar crises alimentares a nível mundial através das Alianças.

Numa declaração, a Comissária para a Inovação, Investigação, Cultura, Educação e Juventude, Mariya Gabriel, afirmou: "A contribuição científica e o envolvimento da Comissão têm sido fundamentais na preparação das Alianças (...) criámos um grupo de peritos de alto nível para explorar as necessidades e opções para reforçar a interface política científica internacional para uma melhor governação dos sistemas alimentares, cujas recomendações serão finalizadas até maio de 2022."

Para saber mais sobre o papel da UE na ação internacional para transformar os sistemas alimentares através de oito Alianças Globais, siga o link para o comunicado de imprensa.

Segurança alimentar: A Comissão aumenta o apoio à ação global para transformar os sistemas alimentares através de oito Alianças Globais

Este artigo foi originalmente publicado na revista Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE. 

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