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Huawei sob suspeitas de facilitar espionagem para o Governo chinês, através da implantação de tecnologia quinta geração (5G). Angela Merkel voltou a falar no assunto esta terça-feira e o JN foi perceber o que está em causa e falar com as operadoras de telecomunicações em Portugal.
Os Estados Unidos atearam a chama e puseram a Huawei debaixo de fogo. Sobre a tecnológica chinesa, fundada por um antigo engenheiro do exército chinês, levantaram-se suspeitas de espionagem para o governo chinês, através da rede de internet móvel de quinta geração, ou 5G, que os novos aparelhos poderão receber.
A Huawei é a maior fornecedora de telecomunicações e a segunda maior fabricante de "smartphones" do mundo
Na base dos receios internacionais, espoletados em grande parte pelos EUA, está uma recente lei chinesa que requer às empresas que colaborem com o Governo quando solicitado. O senador Ben Sasse disse à Associated Press que a China está empenhada em comprometer os interesses de segurança nacional dos EUA, "usando entidades do setor privado" com frequência, depois de a agência para a segurança no ciberespaço do país ter classificado a firma chinesa como de "alto risco".
Com 3 mil milhões de utilizadores em 170 países, a Huawei tem no mercado externo a origem da maior parte do volume de negócios, assumindo posição de liderança em vários países do mundo, pelo que um boicote internacional pesaria bastante nas contas da Huawei, principal rival da Apple. A norte-americana é a maior fabricante de "smartphones" do mundo, mas diminuiu os lucros em 0,5%, no último trimestre de 2018, face a 2017, tendo registado uma desaceleração das vendas, em especial na China.
A confirmar-se a ameaça, que, apesar do alarme europeu ainda carece de evidências concretas, a empresa de equipamentos para telecomunicações pode pôr em causa a segurança nacional em vários países.
Empresa nega espionagem
O gigante tecnológico defende a sua independência e garante que nunca usou equipamento para espiar comunicações nos países onde este é usado. O fundador da Huawei rejeitou, em janeiro, as acusações feitas à empresa, sublinhando que, apesar de "amar" a China e "apoiar" o Partido Comunista Chinês, "não agiria no sentido de prejudicar qualquer outro país ou indivíduo". E negou que Pequim recorra à sua tecnologia para servir a espionagem chinesa.
"Nenhuma lei na China requer às suas empresas que instalem 'backdoors' (programa que permite o acesso e controlo de qualquer dispositivo, sem o conhecimento do utilizador, e a Huawei nunca recebeu qualquer pedido, de qualquer governo, para fornecer informações de forma indevida", afirmou Ren Zhengfei, garantido que a empresa está "comprometida" com os seus clientes em questões de proteção da privacidade.
A Huawei apelou aos Estados Unidos para "pararem com a infundada repressão" à empresa e considerou existir uma "forte motivação e manipulação política" nos processos movidos contra a empresa.
NOS e Altice mantêm parcerias, Vodafone interrompe
Em Portugal, as operadoras dizem-se atentas à evolução do caso. Em dezembro, o regulador português das telecomunicações, a Anacom, disse não haver indícios "para ter preocupação específica" sobre o fabricante chinês.
A Huawei tem escritórios em Lisboa, onde conta com um centro de inovação e experimentação
Contactada pelo JN, a NOS esclareceu que a Huawei é "um dos fornecedores de referência" com os quais trabalha, "mas não é o único", estabelecendo "parcerias com vários fornecedores para cada área de desenvolvimento tecnológico". E acrescentou que "os domínios tecnológicos em que a Huawei é fornecedora são de "elevado nível de imunidade e protegidos quanto a falhas de segurança".
A NOS, que promete acompanhar a evolução da situação, realçou ainda que "leva a cabo uma rigorosa avaliação de risco" e que "até ao momento, não tem qualquer evidência de um risco real de segurança nacional".
Assumindo como ponto fundamental "a segurança e resiliência das redes e serviços disponibilizadas aos seus clientes", a Altice Portugal, que detém a MEO, "continuará a acompanhar todo este processo em alinhamento com os desenvolvimentos que venha a verificar no mercado e em particular o posicionamento que a UE venha a assumir neste processo". A empresa, que assinou recentemente um acordo com a Huawei para a implementação da tecnologia 5G em Portugal, vai manter a colaboração.
A Vodafone foi a única das operadoras cuja gestão a nível internacional tomou uma posição. Fonte oficial da Vodafone Portugal lembrou ao JN as declarações de Nick Reed, CEO da Vodafone, que anunciou uma "pausa na instalação de novos equipamentos Huawei na Europa no que diz respeito ao 5G", até ter todos os factos em sua posse.
A saber
Chanceler alemã quer garantias
A chanceler alemã pediu hoje a Pequim garantias de que as empresas chinesas não fazem espionagem para o governo do país, para dissipar dúvidas decorrentes de falta de provas de abusos por parte do gigante chinês. Pequim "deve garantir que a empresa não transmite todos os dados ao estado chinês e que existam salvaguardas", afirmou Merkel, que se encontra desde segunda-feira numa visita oficial à China, numa palestra na Universidade de Keio, em Tóquio. A Alemanha tem mantido uma abordagem cautelosa em relação ao tema, não tendo embarcado no boicote à empresa, perante a falta de mais dados.
União Europeia preocupada
O comissário europeu responsável pela pasta da tecnologia, Andrus Ansip, defendeu, em dezembro, a necessidade de inquietação com a ameaça, admitindo que a União Europeia deve "estar preocupada" com a empresa e outras tecnológicas chinesas, por poderem comportar riscos em matéria de segurança para os países-membros. O grupo chinês afirmou-se "surpreendido e desiludido" com as declarações e disse estar "aberto a diálogo" para dissipar o mal-entendido e não comprometer a "cooperação de longa data" com a UE.
Vários países já baniram rede 5G
A Austrália e a Nova Zelândia baniram a rede 5G (quinta geração) da Huawei, por motivos de segurança nacional, seguindo os passos de Taiwan e Estados Unidos, que lançaram o alerta e instaram os aliados a colocarem barreiras comerciais. Foi o que fez o Japão ao proibir as entidades governamentais a comprarem à empresa. O Reino Unido não impediu as empresas de usarem a tecnologia da Huawei, mas a British Telecom, que domina a rede de telecomunicações do país, declarou que não utilizará os equipamentos da companhia na implantação de rede 5G.
EUA mandaram deter diretora financeira
Na semana passada, a Justiça dos EUA apresentou uma queixa crime contra a Huawei, por violar sanções comerciais impostas por Washington ao Irão e Coreia do Norte, e roubar segredos comerciais de uma rival norte-americana. Meng Wanzhou, diretora financeira da empresa e filha do fundador, foi detida no Canadá, no âmbito dessa investigação, tendo sido entretanto libertada sob fiança, estando a aguardar decisão sobre extradição.
O que é a rede 5G?
A Huawei está na vanguarda da implantação de rede móvel de quinta geração, que devem chegar em breve à Europa, com a Comissão Europeia a apontar 2020 como o ano da entrada em força da tecnologia. Além de trazerem velocidades muito superiores às que existem, a rede sem fio 5G vão permitir o aumento do número de aparelhos ligados à Internet. Fogão, frigorífico, micro-ondas, robôs e carros autónomos são exemplos.
