Poluição

Sistema de limpeza marinho recolheu plástico do oceano pela primeira vez

Sistema de limpeza marinho recolheu plástico do oceano pela primeira vez

Um gigantesco sistema de limpeza marinha idealizado por cientistas holandeses recolheu, pela primeira vez, resíduos de plástico da grande ilha de lixo no Pacífico.

O sistema, desenvolvido pela "Ocean Cleanup", capturou e reteve resíduos do Grande Depósito de Lixo do Pacífico, um arquipélago de plástico entre a Califórnia e o Havai, com uma área 21 vezes maior do que Portugal.

"O nosso sistema de limpeza do oceano está finalmente a apanhar plástico, desde redes de pesca abandonadas com uma tonelada a microplásticos quase invisíveis", anunciou o criador da Ocean Cleanup, Boyan Slat, num post colocado no Twitter, ilustrado com uma fotografia em que se veem vários tipos de lixo, incluindo um pneu.

"É um excelente primeiro passo", comentou Luís R. Vieira, biólogo e Investigador no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), em Matosinhos. "Tratou-se de uma primeira abordagem, com um protótipo, que recolheu não só grandes plásticos como microplásticos nos primeiros metros da coluna de água", observou.

O Sistema de Limpeza Marinha é uma barreira flutuante de 600 metros em forma de U com uma rede que apanha resíduos até aos três metros de profundidade. Move-se pela força das correntes e recolhe plásticos a flutuar no oceano, permitindo a passagem de peixes e outros animais marinhos.

As implicações para a vida marinha, apesar das garantias da empresa, estão entre as preocupações apontadas por Luís R. Vieira, que também desenvolve investigação no Laboratório de Ecotoxicologia (ECOTOX), no Departamento de Estudos de Populações, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Acresce, o custo do sistema e dúvidas sobre a eficiência da transferência dos microplásticos capturados para os barcos de recolha.

"Mas é uma excelente ideia, especialmente no que diz respeito aos grandes plásticos", disse Luís R. Vieira, lembrando que apenas 30% do lixo marinho, constituído maioritariamente por plástico, está à superfície. Como 70% do lixo dos oceanos está longe da vista, nas profundezas, importa manter o combate ao uso de plástico descartável e reduzir o consumo deste material, aumentando a reciclagem do mesmo.

Para o plástico que já está nos oceanos, a empresa de Slat pode ser uma esperança. "Temos agora um sistema de recolha e armazenagem de resíduos na grande ilha de plástico do pacífico que está a usar as forças naturais do oceano para apanhar e juntar passivamente os plásticos, confirmando, assim, o princípio mais importante que subjaz a este sistema de limpeza marinha", disse Boyd Slat, num vídeo colocado no Twitter.

"É com grande orgulho que anuncio que estamos a recolher plásticos", acrescentou Boyan Slat, numa conferência de imprensa, em Roterdão, na Holanda. Um alívio para aquela organização ambientalista, que nos últimos seis anos tem lutado para implementar o sistema, idealizado em 2013 e lançado ao mar pela primeira vez em setembro de 2018.

Em dezembro de 2018, o grupo anunciou que o sistema não estava a recolher lixo. Um mês depois, uma secção de 180 metros, cerca de um terço do total do mecanismo, partiu-se e teve de ser rebocada para a costa, juntamente com quase duas toneladas de lixo que tinha conseguido recolher.

O novo protótipo tem uma área maior de flutuadores de cortiça, para impedir o plástico apanhado de sair, e um paraquedas aquático que serve de travão, reduzindo a velocidade do mecanismo no mar. O "001/B" está equipado com satélites e sensores para que possa comunicar a posição com um navio, que recolhe os resíduos, após alguns meses.

A organização quer construir uma frota destes mecanismos, prevendo reduzir o tamanho das grandes ilhas de plástico do Pacífico para metade a cada cinco anos. Boyd diz que o sistema tem de melhorar para ser capaz de resistir vários anos e armazenar plástico durante meses, antes de ser recolhido, para que o projeto seja financeiramente viável.

As grandes ilhas de plástico formam-se pela acumulação daquele material em zonas de correntes marinhas rotativas, grandes redemoinhos oceânicos, que juntam milhões de toneladas de lixo numa determinada área. A mais conhecida é a grande ilha de plástico do Pacífico, descoberta em 1997 pelo capitão Charles Moore, mas há outras aglomerações de resíduos, principalmente plásticos, noutras zonas do oceano, nomeadamente no Índico. Estudos recentes admitem que poderão vir a formar-se também no Atlântico, sul e norte.

Estas "sopas de plástico" bloqueiam a entrada da luz nos ecossistemas aquáticos, e afetam o fitoplâncton, organismos responsáveis pela remoção de cerca de metade do dióxido de carbono, um dos gases que mais contribuiu para o efeito de estufa no planeta.

Devido à grande quantidade de plástico produzido e à longevidade no ambiente, os gases produzidos pela degradação deste material podem ter impacto importante na concentração de gases com efeito de estufa.