Ciência

Tetraplégico caminha e mexe os braços com exoesqueleto controlado pela mente

Tetraplégico caminha e mexe os braços com exoesqueleto controlado pela mente

Um homem paraplégico conseguiu caminhar e fazer movimentos com os braços usando um exoesqueleto controlado pela própria mente. Um pequeno passo, que abre gigantes perspetivas para o futuro das pessoas presas a uma cama.

Os movimentos do homem, identificado apenas pelo primeiro nome, Thibault, estão longe de ser perfeitos, mas os médicos acreditam que o sistema, desenvolvido pela Clinatec, em parceria com a Universidade de Grenoble, em França, é um passo de gigante no caminho da melhoria da qualidade de vida das pessoas presas a uma cama.

Thibault ficou paraplégico em 2015, ao cair de uma altura de 15 metros numa discoteca. Passou dois anos no hospital devido a uma lesão na espinal medula e em 2017 entrou para o programa do exoesqueleto da Clinatec.

Começou por praticar com um avatar num jogo de computador. Só depois de conseguir fazer movimentos com aquela personagem virtual passou para uma nova dimensão da realidade e deu os primeiros passos com o exoesqueleto.

"Senti-me como o primeiro homem na Lusa. Não andava há dois anos. Já me tinha esquecido de como ficar de pé e nem tinha ideia de que era maior do que muitas pessoas na sala", disse.

Um regresso a um passado pessoal, em que a locomoção e os movimentos eram naturais, num processo que abriu portas para o futuro. Para poder voltar a andar, Tibault foi colocado num exoesqueleto.

Antes de chegar a esta fase, foi submetido a uma cirurgia, na qual os médicos lhe colocaram dois implantes, por cima das partes do cérebro que controlam o movimento.

Cada implante tem 64 elétrodos que leem a atividade cerebral e enviam as instruções para um computador. Software sofisticado lê as ondas cerebrais e transforma-as em instruções para controlar o exoesqueleto, que pesa cerca de 65 quilogramas e preso ao tecto por cabos e arneses, para minimizar os riscos de queda.

"Não tem os movimentos rápidos e precisos necessários para não cair, ninguém à face da terra tem", disse Alim-Louis Benabid, residente da Clinatec, em declarações ao canal de televisão britânico BBC. "Isto está longe de ser uma caminhada autónoma", acrescentou.

Mais difícil ainda, o movimento dos braços. "Foi muito difícil porque é uma combinação de vários músculos e movimentos. É o mais impressionante que se pode fazer com o exoesqueleto", revelou o paciente.

Nas tarefas em que Thibault teve de tocar em objetos específicos, usando o esqueleto para mover os braços para cima e para baixo e rodar os pulsos, teve uma percentagem de acerto de 71%.

"Resolvemos o problema e mostramos que o princípio está correto", disse Benabid. "Isto prova que podemos aumentar a mobilidade dos pacientes com um exoesqueleto", acrescentou aquele professor, também conhecido por desenvolver estimulação profunda para doentes de Parkinson.

Os cientistas querem aperfeiçoar a tecnologia, mas estão limitados à quantidade de dados que podem captar do cérebro e processar no computador.

De momento, têm 350 milissegundos para ir do pensamento ao movimento, caso contrário o mecanismo fica difícil de controlar. Significa que apenas estão a usar metade (32) dos 64 elétrodos, pelo que, olhando o copo meio cheio, existe potencial para ler a atividade cerebral mais em detalhe, usando computadores mais fortes e Inteligência Artificial mais capaz para interpretar as informações do cérebro.

"Este é o caminho para maior qualidade de vida", acrescentou Benabid. Um percurso já com alguns marco importantes. Em 2012, nos EUA, duas pessoas, paralisadas, conseguiram beber pela primeira vez sem ajuda, graças a um braço artificial que controlaram com o cérebro.

O projeto, batizado com o nome de "Braingate" -, a porta do cérebro, em inglês -, foi publicado na revista científica "Nature", em maio de 2012. Cathy Hutchinson, de 58 anos, fez história ao usar exclusivamente a força do pensamento para fazer um braço mecânico agarrar uma garrafa com café sobre uma mesa, erguê-la e levá-la aos seus lábios para beber, anunciaram os cientistas. O outro voluntário era um homem de 66, também paralisado e vítima de AVC, que na ocasião não foi identificado.