
Crítica de música
No movimento de pêndulo pelo qual se parecem regular os humores da notável discografia de Miguel Araujo, é hora de voltar à introspeção. Em "Por fora ninguém diria" (edição Chiu) paira uma tristeza que não se contenta em ser confortável e jamais resvala para a autocomiseração ou para o moralismo. A luz pode parecer coada, mas não se apaga.
O cantor-compositor, que foi gravando estas 11 faixas ao longo dos últimos anos no estúdio caseiro, continua mestre a pesar e alinhar palavras uma a uma, despindo cada vez mais os versos e as ideias até sobrar cada vez mais, e apenas, o essencial. A instrumentação, também toda sua, vai da secura radical aos gestos barrocos de alguns solos de guitarra. O som, sim, é familiar.
Dito isto, há pop. A solar "Elogio da preguiça", com palmas e lá lá lás e uma guitarra elétrica de partida rumo ao horizonte. A airosa "Civilização" ("Como é bonita, a turbo-propulsão"), leve e liricamente lúdica e que nos levanta do chão. E "As vidas que esta volta dá", um abraço melódico a Paul McCartney.
Várias faixas de "Por fora ninguém diria" serão standards de Miguel Araújo antes do leitor chegar ao fim desta prosa, mas nenhuma tão rapidamente como "Fonte da Moura". É uma das suas especialidades: a canção-fotografia, um cenário hiperespecífico e hiperdetalhado no espaço e tempo e que, por isso mesmo, adquire uma ressonância universal, uma proximidade fatal com o ouvinte, saiba ele ou não, em concreto, do que se está a cantar. "Fonte da Moura" remete para uma zona do Porto e para uma lenda milenar, dançando entre um presente de raspadinhas e filas para o bolo-rei, entre felicidade e rotina e esperança. É melancólica e colada à pele e ao coração numa ordem de magnitude próxima de "Anda comigo ver os aviões".
O álbum parece fechar num tom mais pessoal, em "Aprendi por mim" ("já sei limpar os cacos do meu próprio escombro") e "Eu não vou mudar" ("Se tudo passa nada passa/ E eu só me iludo em vão"). Faça-se luz.

