Bancários associam à criação de empresas movimentos que Ministério Público liga a corrupção

O Ministério Público alega terem sido pagamentos corruptivos ao antigo primeiro-ministro José Sócrates
Foto: Rodrigo Antunes/Lusa
Dois funcionários do gabinete bancário que em 2006 acompanhava o grupo Lena associaram hoje à constituição de empresas diversos movimentos financeiros que o Ministério Público (MP) alega terem sido pagamentos corruptivos ao antigo primeiro-ministro José Sócrates.
Na sessão de hoje do julgamento do processo Operação Marquês, o antigo coordenador do gabinete de empresas de Leiria da Caixa Geral de Depósitos (CGD) Paulo Zenário, e o à data gestor de cliente do Lena, Vasco Vieira, foram confrontados com transferências sucessivas em 27 de dezembro de 2006 de um total de cerca de 7,6 milhões de euros entre uma 'holding' do grupo e um dos seus administradores, Joaquim Barroca, justificadas com a compra e venda de ações.
Para o MP, tal fez parte de um esquema para fazer chegar aquele montante, a troco de benefícios ilegítimos, a contas na Suíça tituladas por José Sócrates e pelo empresário Carlos Santos Silva, considerado pela acusação um dos testas-de-ferro do chefe de Governo entre 2005 e 2011.
Embora afirmando não se recordarem da situação em concreto, Paulo Zenário e Vasco Vieira defenderam, contudo, que o padrão de movimentos é compatível com a constituição de empresas no âmbito de uma reorganização do grupo Lena.
"Em termos bancários, isto são movimentos de constituição de sociedades. Eram movimentos de entrada de capitais que teriam origem em verbas que existiam certamente dentro do grupo", afirmou o ex-coordenador do gabinete da CGD, lamentando que a informação apresentada às testemunhas seja truncada, por se resumir a extratos e cheques.
O entendimento foi corroborado pelo gestor de cliente do Lena, que assegurou recordar-se de "operações de movimentos de constituição de holdings e SGPS [Sociedade Gestora de Participações Sociais] entre as contas para constituir empresas".
José Sócrates, de 68 anos, está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.
No total, o processo conta com 21 arguidos que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que globalmente lhes são imputados.
Os ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014 e no primeiro semestre deste ano podem prescrever, segundo o tribunal, os crimes de corrupção mais antigos, relacionados com Vale do Lobo.
O julgamento prossegue na quarta-feira, com a audição de mais três testemunhas, incluindo Vítor Escária, antigo assessor económico de José Sócrates e um dos arguidos na chamada Operação Influencer, datada de 2023.
O antigo primeiro-ministro continuará a ser representado na sessão pela advogada oficiosa Ana Velho, depois de o defensor que tinha contratado em novembro passado, José Preto, ter hoje renunciado ao mandato.
"A renúncia ainda não produziu efeitos e portanto a audiência de julgamento vai continuar", justificou no final de sessão de hoje a presidente do coletivo de juízes, Susana Seca.
O julgamento decorre desde 03 de julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de Lisboa.
