
Julgamento dos caso Hammerskins está a decorrer com policiamento reforçado
André Luís Alves/Global Imagens
Julgamento de 27 suspeitos de pertencerem ao violento grupo de extrema-direita começou esta quarta-feira, em Lisboa. Estão acusados de, entre 2013 e 2017, terem atacado 18 pessoas por ódio, na Grande Lisboa.
Um estudante universitário acusado de, em 2013, ter participado num espancamento em grupo de um jovem que acabara de sair de um autocarro em Benfica, em Lisboa, confessou em tribunal a sua participação nas agressões, mas negou que estas tenham ocorrido por a vítima ser negra. O arguido é um dos 27 suspeitos de pertencerem ao grupo neonazi Hammerskins que, esta quarta-feira, começaram a ser julgados no Tribunal Criminal de Lisboa. Terão, entre 2013 e 2017, atacado com violência 18 pessoas, na Grande Lisboa, movidos pelo ódio a negros, homossexuais, muçulmanos, antifascistas e comunistas.
"Eu estava embriagado. Quando cheguei, ele já estava no chão e agredi-o", contou Alexandre Silva, precisando que atingiu o jovem com murros e pontapés. Outros dois elementos do grupo com cinco pessoas, cuja identidade é desconhecida, terão ainda golpeado W. no tronco com uma faca e uma chave de rodas. Quando, segundo o Ministério Público, alguém disse "já chega", abandonaram-no inanimado, no passeio.
"Não tinha noção do mal"
Esta quarta-feira, Alexandre Silva, à data com 18 anos, contou que, a 13 de novembro de 2013, o grupo seguia de carro para casa depois de ter passado a noite a divertir-se no Cais do Sodré, na zona ribeirinha de Lisboa. "Não tinha como ir para casa e as pessoas deram-me boleia. Tínhamos bebido juntos", acrescentou.
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Tudo decorreu normalmente até chegarem a Benfica. "Avistaram o sujeito e pararam o carro, porque havia um deles que tinha um problema com o indivíduo", assegurou. Alexandre Silva não sabia nem quem era nem era, frisou, particularmente próximo das pessoas com quem estava. Apesar disso, não deixou de participar nas agressões. "Foi por inconsciência da altura, álcool à mistura. Foram e eu fui atrás. Não tinha noção do mal que estava a fazer", justificou.
O Ministério Público alega que a agressão aconteceu por "ódio racial" e "para mostrar serviço" aos elementos seniores dos Hammerskins. Alexandre Silva nega a motivação imputada. Reconheceu, ainda assim, que, no ano seguinte, se tornou candidato a entrar no grupo de extrema-direita. "Foi pelas pessoas, para estar junto com as pessoas. Não foi pela ideologia", salientou o estudante universitário. O ingresso total nunca chegou a acontecer: "Saí porque quis."
O arguido responde, no total, por um crime de tentativa de homicídio, três crimes de discriminação racial, religiosa ou sexual, três de ofensa à integridade física qualificada, e um de dano com violência.
Guarda prisional acusado
Alexandre Silva é um dos quatro arguidos que, esta quarta-feira, disseram querer prestar declarações no julgamento. Entre estes, está um guarda prisional acusado de, a 20 de setembro de 2015, ter espancado, também em grupo, um militante do PCP, que acabara de sair de um comício do partido, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Na acusação, o Ministério Pública sustenta que João Vaz, de 39 anos, terá, com outros elementos dos Hammerskins, atacado V. até este ficar inconsciente, apenas por ser comunista e para "mostrar serviço" aos seus superiores. Esta quarta-feira, o guarda prisional contrapôs que nunca pertenceu ao grupo neonazi nem participou no ataque, ocorrido após ter estado numa manifestação em frente a Assembleia da República contra a receção de pessoas refugiadas.
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Na versão de João Vaz, o espancamento nem sequer existiu e apenas uma pessoa que tentara que um dos manifestantes despisse uma t-shirt a dizer "refugees not welcome" ("refugiados não são bem-vindos", em inglês) foi atingida com uma cotovelada na têmpora, tendo desmaiado automaticamente.
Confrontado com contradições face a declarações que prestou anteriormente, com escutas em que parecer pertencer aos Hammerskins e com um cachecol a dizer "skinheads" ("cabeças rapadas") apreendido em sua casa, o arguido insistiu que nunca pertenceu àquele grupo nem partilha a sua ideologia.
Ao todo, o guarda prisional está acusado de três crimes de ofensa à integridade física, um de discriminação racial, religiosa ou sexual e um de detenção de arma proibida.
O julgamento, que decorre com policiamento reforçado no Campus de Justiça de Lisboa, continua na próxima semana, com a continuação do depoimento de Alexandre Silva e dos restantes dois arguidos que manifestaram intenção de falar. Os 27 acusados têm entre 26 e 52 anos e profissões tão diversas como consultor imobiliário, empresário, operador de máquina, vigilante e, até, auxiliar de educação num estabelecimento infantil.
