
Miguel Pereira/Global Imagens
Arminda, uma das irmãs da Fraternidade Cristo Jovem acusadas de escravizar noviças no seu "convento", em Requião, Famalicão, confessou ao Ministério Público que castigava as jovens quando elas mentiam ou desobedeciam.
"Quando desobedeciam, chamava primeiro a atenção, e depois podia dar uns estalos", admitiu. Também disse que as insultava e até contou de que forma: "São umas porcas, umas sujas, mentirosas, não fazem falta nenhuma, não têm educação e não têm família".
No processo consultado pelo JN a confissão de Arminda, hoje com 69 anos, consta como tendo sido feita em dezembro de 2015, no Tribunal de Famalicão, depois de no primeiro interrogatório judicial, a 23 de novembro, após a operação da Polícia Judiciária (PJ) do Porto, nem ela, nem as duas outras religiosas, Isabel e Joaquina, nem o padre Joaquim Milheiro, também arguidos no caso, terem prestado declarações.
"Piamente transtornada"
Arminda, que abandonou o "convento" logo a seguir à operação da PJ, pediu para ser ouvida de novo, pois no primeiro interrogatório judicial tinha saído do tribunal "piamente transtornada". Desta vez, já admitiu castigos como estalos, por exemplo quando as "noviças" desobedeciam ou se atrasavam para as tarefas, e que podia até tê-las atingido "com objetos que tinha na mão", nomeadamente com uma mangueira, embora "nunca o fazendo de propósito". Com a vassoura foi só uma vez.
Sobre o chicote encontrado atrás do sacrário e também usado nos castigos, segundo as queixosa, Arminda justificou que o mesmo servia só para autoflagelação e penitências. Embora tenha referido que, por vezes, lhes dizia que estavam só a fazer "umas cócegas, e umas cócegas não vale nada".
Quanto ao castigo de dormirem no chão explicou que ela própria também o fazia e que não se recordava de ter obrigado as jovens a despirem-se. Também negou que as tivesse obrigado a não usar roupa interior. A acusação do MP revela outros castigos, como ficar de joelhos, proibição de tomar banho e ver televisão, limitação de contactos com a família e longas jornadas de trabalho. Arminda disse ao tribunal que "quando se vai para um convento não é para ver televisão".
Contrariando os relatos das "noviças" que alegaram haver jornadas de trabalho de 20 horas diárias, Arminda notou que essas eram "esporádicas" e que as jovens podiam fazer a sesta. Ajoelhar era uma "penitência" feita voluntariamente a revelação do que iriam dizer ao padre em confissão era feita voluntariamente. A arguida acrescentou que não tinha consciência de que estava a "transgredir", pois "gostava muito" das jovens, queria-as como filhas e, depois dos castigos, até as abraçava.
Acusados de escravidão
As freiras Arminda, Isabel, Joaquina e o padre Milheiro estão acusados de nove crimes de escravidão. A investigação começou em 2015 e durante a mesma foram ouvidas várias jovens que já tinham abandonado o "convento" em anos anteriores.
