
Padre Joaquim Milheiros, fundou o "convento" e é arguido
Miguel Pereira/Global Imagens
Padre de comissão nomeada pela diocese para tomar conta do convento de Requião, em Famalicão, nunca tomou posse.
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O arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, e os três padres da comissão que a diocese nomeou para acompanhar o "convento" de Requião, em Famalicão, onde noviças seriam maltratadas e obrigadas a trabalhar, foram deixados à porta no dia em que deviam ter tomado posse. O padre e as três freiras acusados de alegados crimes de escravidão barraram-lhes a entrada. A revelação foi feita no julgamento que está a decorrer no Tribunal de Guimarães por Vítor Costa, um dos padres da comissão, criada depois da intervenção da Polícia Judiciária (PJ), no final de 2015.
"Nunca chegamos a ser reconhecidos e a tomar posse, foi-nos vedado o acesso à instituição". Na última audiência do julgamento, o sacerdote contou que existiram duas reuniões anteriores entre a comissão, o arcebispo e os responsáveis do "convento" e que, no dia marcado, um grupo de pessoas da Fraternidade impediu-lhes a entrada e contestou a intervenção da diocese.
Segundo Vítor Agostinho, a comissão foi nomeada para "ajudar" a instituição depois dos acontecimentos que surgiram "na comunicação social". Referia-se à operação da PJ do Porto que libertou duas noviças e constituiu arguidos as três freiras e o padre do "convento" de Requião.
"Falou-se de maus-tratos, mas (...) eu estava mais focado na reorganização da contabilidade do Centro Social [de Apoio e Orientação da Juventude, a instituição particular de solidariedade social que geria a Fraternidade Cristo Jovem e o convento]", referiu o pároco, por insistência dos juízes.
Fundos e subsídios
Vítor Costa acabaria também por afirmar que, apesar de nunca ter tido acesso a qualquer documento da instituição, ficou com a sensação de que o Centro Social era "só para recolher fundos e subsídios".
Em abril passado, o Instituto da Segurança Social disse ao JN que não foram feitos "pagamentos a qualquer título" ao Centro Social, porque as suas atividades não o justificam e a instituição "não se encontra registada no sistema". Acrescentou que "já solicitou o cancelamento do registo de IPSS".
Na última sessão do julgamento, depôs também o bispo emérito de Évora, José Alves. Disse que a instituição "tinha e tem" estatutos aprovados pela diocese de Braga. D. Jorge Ortiga será também ouvido como testemunha.
MAUS-TRATOS
Averiguação da diocese sem resultado conhecido
Pouco depois da intervenção da Polícia Judiciária, a diocese de Braga disse ter destacado um padre para investigar as denúncias de "anomalias" na vida da Fraternidade Cristo Jovem, cujos estatutos tinha aprovado. Os resultados da averiguação nunca foram divulgados. Duas das alegadas vítimas de escravidão no tempo que passaram como "noviças" na Fraternidade, ainda requereram no processo crime que o bispo de Braga e a diocese fossem constituídos arguidos no caso, o que foi recusado.
