
Sede dos Hell Angels no Porto
Arquivo/Global Imagens
Ministério Público acusa 89 membros dos Hells Angels de associação criminosa, homicídios, agressões, roubos e tráfico de droga. Queriam ter o domínio absoluto dos grupos marginais de motards em Portugal.
Queriam ter o domínio total da criminalidade entre os gangues de motards em Portugal, nem que para isso tivessem de eliminar concorrentes como o grupo Red & Gold que Mário Machado, líder nacionalista, pretendia implantar em território nacional. O ataque ao restaurante de Loures, em março de 2018, durante uma reunião dos rivais, foi a parte visível da guerra declarada por 89 membros dos Hells Angels, que o Ministério Público acabou de acusar de crimes de associação criminosa, homicídio tentado, ofensa à integridade física, extorsão, dano qualificado com violência, roubo, tráfico de droga e detenção de armas proibidas.
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O conflito entre os Hells Angels ("anjos do inferno") e os Bandidos MC, padrinhos dos Red & Gold de Mário Machado em Portugal, nasceu há várias décadas nos Estados Unidos, mas acabou por estender-se ao território nacional. Em pano de fundo estava o domínio e monopólio do submundo do crime entre gangues de motards.
Quando os Hells Angels souberam que Machado estava a criar uma célula dos eternos rivais em Portugal, decidiram atacar, com o objetivo de eliminar o gangue.
Plano de ataque
Segundo o Ministério Público (MP), a investigação da Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária não deixou margem para dúvidas: existia um plano comum a todos as delegações dos Hells Angels espalhadas pelo país para eliminar o grupo liderado por Mário Machado.
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Para o MP, a prova de que houve concertação da associação criminosa é que membros das cinco delegações (apelidadas capítulos) foram convocados para o ataque ao restaurante do Prior Velho, em Loures, a 24 de março do ano passado, onde sabiam que Mário Machado iria reunir com os membros dos Red & Gold, elementos dos Los Bandidos vindos propositadamente da Alemanha.
A preparação do ataque começou cinco dias antes, sem recurso a conversas de telemóvel ou pela Internet. Para não deixar rasto.
Com toda a logística preparada, antes da batalha, 29 elementos do gangue juntaram-se em quatro carrinhas num posto de abastecimento de Aljustrel, para que todos chegassem em simultâneo ao Prior Velho. Com os telemóveis desligados, munidos de facas, machados e bastões, os Hells Angels invadiram o restaurante e surpreenderam os 15 membros dos Red & Gold.
Mário Machado fugiu
Segundo o MP, agrediram de forma bárbara todos os elementos que encontravam pela frente, mas o principal alvo, Mário Machado, conseguiu fugir para um dos compartimentos do restaurante, de onde só saiu depois do termo da ofensiva.
O MP acredita que os factos não foram mais gravosos precisamente porque o líder dos Red & Gold escapou. "No interior do estabelecimento, os arguidos tentaram matar quatro ofendidos e feriram gravemente seis outros", explica o MP.
Numa escuta telefónica intercetada pela PJ após o ataque, um dos membros dos Hells Angels conta a invasão do restaurante a um "irmão de sangue" que está na Suécia. Assegura-lhe que entraram 100 pessoas para tratar do assunto, garantindo que em Portugal "há ação". Prometia ainda mais episódios semelhantes.
A escalada de violência só foi travada graças ao desmantelamento do grupo, com uma primeira vaga de 56 detenções em julho do ano passado. A operação da PJ foi lançada estrategicamente poucos dias antes da Concentração Motard de Faro, onde estavam previstos novos confrontos sangrentos entre elementos dos Hells Angels e dos Red & Gold.
