
Este ano, três agentes da PSP já puseram termo à vida
Foto: Ricardo Ramos / Arquivo
Número de mortes causadas por problemas mentais nas forças de segurança é superior à média nacional.
O afastamento da família e o elevado número de divórcios entre os elementos das forças de segurança contribuem para uma maior prevalência de doenças mentais na PSP e GNR. E poderá ser uma das explicações para uma taxa elevada de suicídios nesta profissão. De 2010 a 2024, 107 polícias puseram termo à vida. Este ano, três agentes da PSP já fizeram o mesmo.
“Todos os estudos apontam para a interligação. A distância da família e um divórcio têm impacto na vida privada, profissional e na saúde mental de um polícia”, assegura Miguel Rodrigues. O académico e polícia dá o exemplo do agente, de 23 anos e com poucos meses na corporação, que, em março deste ano, se matou num quarto dos Serviços Sociais da PSP. Natural dos Açores, estava colocado em Lisboa e usou a arma de serviço para pôr fim à vida. “Tinha sido pai de gémeos e, no dia anterior a suicidar-se, disse à esposa que não aguentava estar longe da família”, recorda.
Outros dois polícias também se suicidaram este ano. Eram da PSP, confirma a Direção Nacional, acrescentando que, no ano passado, morreram cinco polícias nas mesmas circunstâncias e mais cinco em 2023. Já a GNR, Ministério e Inspeção-Geral da Administração Interna, mesmo após pedido do JN, não revelaram números. “A GNR tem uma política de comunicação muito reservada no que diz respeito aos suicídios. O tema é discutido em sede própria e abordado ao nível da comunidade científica, procurando, com sensibilidade e respeito pela privacidade individual e das instituições, promover medidas eficazes de prevenção e apoio”, justifica o Comando-Geral.
Cifras ocultas
Assim, os únicos números conhecidos são os recolhidos pela Unidade de Investigação e Desenvolvimento, do Sindicato Independente de Agentes de Polícia. E estes mostram que, em 15 anos, 107 polícias (57 da PSP e 50 da GNR) cometeram suicídio. O ano mais dramático foi o de 2015, com a morte de 15 elementos das forças de segurança. No ano passado, registaram-se seis suicídios, menos dois do que os assinalados anualmente em 2023, 2022 e 2021.
“O país apresenta valores oficiais que rondam os cerca de mil suicídios, nas duas últimas décadas, o que representa uma média de quatro suicídios/ano por 40 mil habitantes. No caso da PSP/GNR, a média é de sete suicídios/ano, sendo que, em vários anos, este valor duplica ou triplica. Tal mostra uma clara correlação entre a profissão de polícia na PSP/GNR e uma muito mais elevada tendência suicida do que na população em geral”, defende Miguel Rodrigues.
Segundo o investigador, o “problema será muito mais grave” do que os números mostram, uma vez que “há polícias que passam a carreira com problemas de saúde mental nunca diagnosticados”.
GNR e PSP reforçaram medidas, mas polícias pedem mais
Linhas e apoio
A PSP criou, em 2001, uma linha de apoio, através da qual os psicólogos asseguram o atendimento e o apoio permanente a polícias e familiares em situações de crise. Também a GNR garante uma linha de apoio psicossocial 24 horas por dia, sete dias por semana.
Colegas atentos
A PSP tem 130 pessoas capacitadas para sinalizar ao “Gabinete de Psicologia pessoas que apresentem sinais de risco e que requeiram análise técnica para despiste e prevenção de ocorrências”. Desde 2016 que o Curso de Formação de Agentes conta com um módulo sobre suicídio na disciplina de Psicossociologia. Na GNR, militares foram “especialmente treinados para identificar sinais e sintomas de perturbação em camaradas com os quais convivem de perto”. A GNR dispõe de um Departamento de Psicologia, que realiza ações de sensibilização e rastreios psicológicos aos militares.
Consultas de saúde mental
Em 2016, foi celebrado um protocolo entre a PSP e a Direção-Geral de Saúde “para referenciação e encaminhamento” de polícias para Unidades/Serviços de Psiquiatria e de saúde mental, no SNS. Na GNR há consultas de “psicologia clínica presencial ou por telemedicina”.
Longo caminho a percorrer
Apesar destas medidas, Miguel Rodrigues alega que “há um caminho muito grande a fazer”. “O primeiro passo é falar-se no assunto e dar formação. Esperemos que esta ministra deixe de criar grupos de trabalho, que nunca tiveram efeitos práticos para os polícias”, sublinha.
Prioridade no SNS
O SIAP tem como prioridade a aprovação de um diploma legal que permita aos polícias com problemas de saúde mental terem prioridade no SNS. “Iria permitir uma rápida resposta e ultrapassar o estigma que muitos polícias ainda sentem sempre que têm de recorrer a ajuda na instituição”, explica Miguel Rodrigues.

