Morador contraria agente que diz ter visto faca no local onde Odair Moniz morreu

Foto. Rita Chantre
Uma agente da PSP que esteve no bairro da Cova da Moura na madrugada em que Odair Moniz morreu com dois tiros disparados por um polícia disse, esta quarta-feira, ter visto um punhal junto ao corpo, versão contrariada por um morador.
Na sessão de hoje do julgamento do agente da PSP acusado do homicídio de Odair Moniz em 21 de outubro de 2024, a agente de investigação criminal da PSP Inês Oliveira garantiu que o homem que morreu tinha duas bolsas na cintura e que existia um punhal no local. "Vejo um punhal, sei que estava ao pé das bolsas", recordou a agente da PSP, em resposta ao procurador do Ministério Público.
No entanto, em relação ao punhal, a agente Inês Oliveira não conseguiu garantir perante o coletivo presidido pela juíza Ana Sequeira que a arma branca estava no local desde que chegou à Cova da Moura, minutos depois da morte de Odair Moniz. Questionada várias vezes sobre o punhal, a agente da PSP só conseguiu afirmar que viu um punhal no chão depois da chegada da Viatura Médica de Emergência Rápida (VMER).
"Era possível estar ali o punhal e não o ter visto?", questionou um dos juízes, tendo a agente de investigação criminal respondido: "Assumo que sim". A falta de luz foi uma das razões utilizadas para justificar o facto de não ter visto antes a faca encontrada no local.
"Não creio que [a faca] não estivesse [no local desde o início]", sublinhou, sem dizer, ainda assim, que viu o objeto antes da chegada da ambulância e em resposta ao juiz que mencionou testemunhas já ouvidas, incluindo um agente da PSP, que dizem não ter visto qualquer punhal no local.
Sobre a existência de duas bolsas, que é outra das dúvidas que tem sido colocada ao longo do julgamento, a agente disse ter "a perceção de que eram duas bolsas" e que levantou as duas bolsas quando procurou os ferimentos provocados pelas duas balas disparadas.
"Tenho a perceção de que sim, que quando estavam à cintura estavam fechadas", acrescentou a agente, dizendo também lembrar-se de ver, mais tarde, dinheiro dentro das bolsas, pelo que as mesmas teriam sido abertas.
A versão da existência do punhal foi, no entanto, contrariada durante a sessão de hoje por um dos moradores da Cova da Moura, que assistiu ao momento em que foram disparados tiros para o ar e outros dois na direção de Odair Moniz.
"Em nenhum momento", disse o morador ouvido em tribunal, viu uma faca nas mãos de Odair. "Não tinha nada nas mãos", acrescentou, dizendo também que Odair "não fez nenhum movimento brusco" e que tinha apenas uma bolsa consigo.
Este morador gravou ainda o momento em que foram chegando mais elementos da PSP, até à chegada da VMER, tendo garantido que um dos agentes presentes pediu que parasse de filmar.
Odair Moniz, de 43 anos e residente no Bairro do Zambujal (Amadora), foi morto a tiro pelo agente da PSP Bruno Pinto em 21 de outubro de 2024, depois de ter tentado fugir à PSP e resistido a ser detido na sequência de uma infração rodoviária.
Segundo a acusação do Ministério Público, datada de 29 de janeiro de 2025, o homem cabo-verdiano foi atingido por dois projéteis - um primeiro na zona do tórax, disparado a entre 20 e 50 centímetros de distância, e um segundo na zona da virilha, disparado a entre 75 centímetros e um metro de distância.
No despacho do Ministério Público não é referida qualquer ameaça com uma arma branca por parte de Odair Moniz.
Bruno Pinto, em liberdade e suspenso de funções há cerca de um ano, está acusado de homicídio, crime cuja pena pode ir de oito a 16 anos de prisão.
