
Antes de seguir para o hospital, Noah foi assistido no posto de Idanha-a-Velha , para onde foi transportado numa ambulância do INEM, longe dos olhares dos populares. Entre os voluntários, havia muitos estrangeiros nas buscas, que esvaziaram a povoação
José Carmo / Global Imagens
Depois do desespero e apreensão, em Proença-a-Velha, chora-se agora mas de felicidade com o salvamento do pequeno Noah. Notícia recebida pela população com palmas e vivas.
E de repente, caía o crepúsculo, entravam as cores desalumiadas da noite, o céu mudava de semblante e as caras começaram a raiar. A felicidade era sólida, indestrutível. Mudou tudo: aqui no centro histórico de Proença-a-Velha, concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, 22 horas da noite, batem-se palmas e dão-se vivas largas atiradas pelo ar de cada vez que passa um carro da GNR ou dos bombeiros e todos são saudados.
São vários os proençais que andam na rua ou estão sentados na esplanada do Salão Polivalente de Proença, que é um café e um minimercado e atração central da Rua do Espírito Santo, mesmo abaixo da Igreja Matriz. Ali onde o nome Noah está na boca de toda a gente, há cerveja e bem-estar em todas as mesas, brinda-se, espalhafata-se, diz-se e repete-se o nome dele, o júbilo é tanto que se entorna.
"Ai que grande felicidade, já chorei e vou tornar a chorar, obrigado minha senhora", diz ao JN Núria, e a empregada espanhola do Salão Polivalente, que há dez anos se mudou de Madrid para cá à procura de uma vida interior melhor, levanta as mãos para o teto branco do seu estabelecimento.
"Chorei e liguei logo ao meu filho, ele só tem 11 anos mas também estava muito preocupado, coitadinho", continua Núria. "Agora é um alívio muito grande. Proença rezou toda, a minha Nossa Senhora da Silva, a nossa padroeira daqui, também temos o Senhor do Calvário, é muito bom, piedoso, ouviu-nos e o pequenino foi achado. Hoje é um dia muito especial para nós", diz Núria e fica com os olhos a brilhar.
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Noah, a criança de dois anos e meio que na manhã de quarta-feira, pouco depois das oito horas, foi dada como desaparecida pela mãe, foi encontrada sozinha e nua numa zona florestal a cerca de cinco quilómetros de casa. Estava desidratada, com arranhões nas pernas e na cara, mas estava bem, confirmou o capitão Jorge Massano, da GNR de Castelo Branco, que disse que o menino foi encontrado pouco antes das 20 horas de quinta-feira, num "setor de busca que foi alargado" para cerca de 20 quilómetros durante o dia.
"O menino estava a cerca de cinco quilómetros de casa em linha reta, ainda na zona de Proença-a-Velha, mas já muito próximo da povoação de Medelim. "Existe essa possibilidade, de ter percorrido uma distância de 10 quilómetros", acrescentou o capitão, que é o responsável pelas operações de busca e coordenação que envolveu cerca de 150 elementos, entre militares da GNR, bombeiros, proteção civil municipal, sapadores florestais e voluntários civis, com apoio de equipas cinotécnicas, drones e mergulhadores, que desde quarta-feira vistoriavam poços e linhas de água onde a criança pudesse estar.
A estes juntaram-se também, por iniciativa própria, grupos de muitos estrangeiros, sobretudo ingleses e holandeses, que abundam nesta zona da Beira Baixa, apostados no ambiente alternativo da permacultura.
Depois de encontrado, depois de dada a notícia à mãe, Rita, que é portuguesa, e ao pai, Leandro, que é belga, a família mudara-se para Proença-a-Velha há seis anos, juntamente com os avós maternos, Dulce e Manuel, depois de partilhada a felicidade, o menino foi levado para observação ao pequeno posto médico da aldeia templária de Idanha-a-Velha.
Estava bem, confirmou-se, mas por precaução foi conduzido, já perto das 21 horas, ao Hospital de Castelo Branco para exames complementares. Todos estes movimentos foram mantidos longe dos olhares da população e dos jornalistas pela GNR.
Porque estava nu?
Noah, que saíra de casa sozinho na quarta-feira ainda antes das oito da manhã - levantou-se, calçou as galochas, e saiu porta fora com a cadela Melina, dirigindo-se para o campo agrícola onde o pai já laborava - estava totalmente despido.
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Uma das suas galochas, o calção, a fralda e a camisolinha que vestia tinham sido encontrados caídos junto ao rio Torto, na margem para lá da sua casa, espalhados pelo caminho durante cerca de dois quilómetros, numa zona florestal onde se avistaram as suas pegadas e as da cadela, numa zona de terra mole.
Ainda não se sabe ao certo por que razão o menino não tinha roupa.
O Dia do Juízo Bom
"Este foi o dia do juízo final mas por uma vez acabou bem, graças a Deus e a Nossa Senhora", disse ao JN Teresa, vizinha de campo dos pais de Noah que durante o dia manteve uma cara fechada de tristeza mas à noite se transmutou. "Não lhe consigo explicar. Não sei o que dizer. Ninguém sabe o que passaram aqueles pobres pais nestas horas de aflição. Mas agora acabou e acabou bem", diz a mulher.
"O meu marido Alfredo andou nas buscas durante todo o dia. Aliás, foi ele que que me deu a notícia que o menino tinha desaparecido, ele estava na horta, era manhã cedo, e ouviu um grande estrondo. Foi ver a correr: o pai do Noah, naquela hora de aflição, desorientado, desesperado, coitado, tinha metido o jipe no ribeiro e o jipe estava todo tombado".
Com centenas de pessoas voluntariadas a andar pelos montes e vales de Proença a gritar o nome de Noah, com cajados, binóculos e olhos aglomerados, Mariana caminha sozinha com os seus dois cães, Pixie e Feijão. É uma jovem mãe, veio de Castelo Branco ajudar a procurar. "Tinha que vir. Tinha passado a primeira noite a ver as notícias na televisão e decidi vir, vir ajudar, teve que ser. Tenho um filho de um ano e meio e nem consigo imaginar, nem ninguém, a aflição daqueles pais".
Estrangeiros queriam mais organização
Entre os muitos estrangeiros que participaram nas buscas por Noah - imigrantes transformados em eco-agricultores que vieram para a Beira Baixa em busca de uma segunda vida -, o JN encontrou Phil, irlandês que está cá há cinco anos. Ele seguia monte acima com mais procuradores, mas levava cara zangada.
"É desapontante, vejo muita desorganização, muita descoordenação. E há aqui muita gente disposta a ajudar. Mas as pessoas têm que ser guiadas e nem todas estão a ser", diz Phil.
E completa: "Não se traçam perímetros, não se fazem grelhas, não se assinalam as zonas que já foram vistoriadas, é uma grande confusão. Se calhar, isto podia estar bem mais organizado", disse Phil, ainda antes do desfecho do caso. "Vamos precisar de muita sorte para o encontrar".
