
Padre Milheiros (ao centro) foi detido pela PJ do Porto
Miguel Pereira/Global Imagens
Vítimas de responsáveis de "convento" em Famalicão alegam "tortura física e psicológica". Querem ser compensadas por privações, agressões e humilhações.
Corpo do artigo
Cinco jovens que estiveram no "convento" da Fraternidade Cristo Jovem, em Requião, Famalicão, exigem um total de quase 900 mil euros de indemnizações pelos alegados maus-tratos e escravatura de que foram vítimas e pelo trabalho não pago que foram obrigadas a fazer.
No processo-crime em curso, que o JN consultou, as "noviças" pedem uma compensação pela "tortura física e psicológica", pelas privações, agressões e humilhações que dizem ter sofrido durante os anos em que estiveram na instituição. Mas, na base dos pedidos de indemnização, estão também os anos de trabalho "sem contrapartida monetária e material".
Nos pedidos que o tribunal irá analisar, uma das jovens admite que os danos são "impossíveis de reparar", sendo que uma outra fala das "marcas profundas" deixadas.
Os pedidos de indemnização por danos patrimoniais e não patrimoniais entraram em tribunal durante o passado mês de junho, mas já antes, em 2016, uma das "noviças" havia pedido que os arguidos prestassem caução económica ou que lhes fosse decretado o arresto preventivo dos bens, tendo em vista a futura reparação dos prejuízos causados.
Receio de fuga de bens
Para fundamentar este pedido, a jovem invocou notícias vindas a público que dariam conta de que os bens da Fraternidade Cristo Jovem poderiam reverter a favor da diocese de Braga, deixando assim a instituição sem património que garantisse o pagamento de futuras indemnizações às alegadas vítimas. A mesma queixosa requeria que os arguidos prestassem caução económica de 120 mil euros ou, em alternativa, fosse feito o arresto preventivo da maquinaria da tipografia que a Fraternidade explorava e do recheio do "convento".
Os arguidos alegaram que o requerimento não invocou nenhum facto que sustentasse a teoria da alienação dos bens da Fraternidade a favor da diocese.
Argumentos que acabariam por ser aceites e também usados pelo Ministério Público, que rejeitou o pedido, com a justificação de que não tinham sido elencados factos concretos que "sustentem o receio da perda de garantias patrimoniais".
SABER MAIS
Acusados de nove crimes
As freiras Arminda, Isabel, Joaquina e o padre Milheiros estão acusados de nove crimes de escravidão. A investigação da Polícia Judiciária do Porto começou em 2015. Foram ouvidas várias jovens que já tinham abandonado o "convento" em anos anteriores.
Castigos e insultos
Segundo a acusação do Ministério Público, as jovens eram proibidas de tomar o pequeno-almoço ou banho, obrigadas a ficar nuas umas em frente às outras, a autoflagelarem-se e a jantarem de joelhos no chão. Também havia insultos. Por exemplo: "São um monte de lixo, umas porcas, monte de esterco, não têm educação nenhuma".
