
Esquema de burlas era feito a partir do bar Tropical 2 na zona da Sé, no Porto
Leonel de Castro/Global Imagens
Um homem de 76 anos ficou sem cinco mil euros ao cair numa burla feita a partir de um bar de alterne na zona da Sé, no Porto. O esquema com cartões bancários terá causado 36 vítimas.
A dona do bar, o companheiro, o filho, três alternadeiras e dois cúmplices estão a ser julgados por dezenas de crimes de burla, no Tribunal de São João Novo, no Porto. O esquema vigorou entre março de 2019 e junho de 2021 e terá rendido mais de 250 mil euros ao grupo.
Uma das alternadeiras acusadas pelo Ministério Público admitiu esta quinta-feira que participava em encontros com os homens burlados e que até recebeu 400 euros de um deles para comprar um vestido. Não se pronunciou sobre o alegado esquema, mas explicou que, após os encontros, nunca mais falava com os homens, porque eles "só queriam ter relações sexuais".
Foi de Lisboa ao Porto para se encontrar com cabeleireira
Foi na rede social de encontros Tinder que Manuel, de 76 anos, conheceu Carina, que tinha 50 anos e se apresentou como cabeleireira, mas trabalhava no bar de alterne. A partir dali, conversaram pelo Facebook e através de telefone, tendo o professor universitário aceitado viajar de Lisboa até ao Porto para se encontrar com a "cabeleireira".
Carina apareceu no encontro com uma amiga e foram todos até ao bar da Sé, o Tropical 2, que fica perto da Batalha, para tomar uma bebida. "Parecia um bar normal, mas com pouca iluminação. Ficámos lá a tomar umas bebidas", contou o professor doutorado em Ciência Política, depois de apontar as arguidas Sandra e Rute como sendo Carina e a amiga Maria.
Conta era de cem euros
Acabaram as bebidas e Manuel pediu a conta: cem euros. Como não sabia bem o custo das bebidas delas, não estranhou. Veio uma senhora com o terminal multibanco até à mesa. Não viu o visor e confiou que lhe iam cobrar 100 euros. A mulher disse que havia falta de rede ou erro do cartão. "Eu dei outro cartão e inseri o código mais três vezes. A mulher disse sempre que não estava a dar", conta.
"A senhora aceitou que eu pagasse 50 euros em dinheiro e as meninas ficaram de ir buscar 50 euros. Depois, fazíamos contas porque íamo-nos encontrar para jantar", afirma Manuel. Saíram os três do bar. Carina disse que ia deixar a amiga e que, depois, ia ter com ele à Praça Velásquez.
Jantou e dormiu sozinho no hotel
"Esperei três horas. Tentei ligar mas já estava desligado. Enviei mensagens e nada". Manuel jantou e passou a noite sozinho no hotel. Quando acordou, foi consultar o saldo. Viu que lhe tinham tirado 100 euros do primeiro cartão e pensou que afinal tinha conseguido pagar. Depois, foi ver o saldo do outro cartão e viu que tinham feito três movimentos de três mil, 1500 e 500 euros. Ficou sem cinco mil euros no total. Cinco mil euros que já se transformaram em sete mil por causa dos juros e das comissões ao banco.
Cerca de um mês depois, recebeu uma mensagem de um número desconhecido. Dizia que era a Carina e que tinha filmes e fotos dele com duas prostitutas. Manuel tinha de lhe pagar, ou ela punha as fotos nas redes sociais. "Manuel não pagou e no dia seguinte apresentou queixa na PSP. "Tudo isto afetou-me muito, em termos académicos e sociais", lamentou o professor universitário.
"Queria ter relações sexuais comigo e eu não lhe apareci mais"
Antes do depoimento de Manuel, a amiga de Carina, de nome real Sandra, quis prestar declarações para contrariar afirmações de duas vítimas que haviam testemunhado na sessão anterior.
"Houve um cliente que disse que eu fiquei com 400 euros. É verdade mas foi ele que me ofereceu. Levantou o dinheiro e deu-me para eu comprar um vestido", assegurou Sandra. "Ele disse: vais comprar e vais vestir para mim. Claro que ele não queria ver o vestido. Queria ter relações sexuais comigo e eu não lhe apareci mais", explicou.
Sandra, de 50 anos, negou ainda ter-se responsabilizado para pagar a conta de um dos clientes. "Então se eu ia lá para ganhar a minha vida, qual era a lógica de gastar? Não tem lógica".
Por último, a alternadeira explicou que, exceto uma única exceção, depois de estar com os clientes no bar nunca mais falava com eles. "Eu sabia que as suas intenções eram terem relações sexuais comigo. Se eu os mandava esperar e nunca mais aparecia, como é que depois ia dar a cara?", justificou.
Mulher queria oferecer-lhe roupa de loja que ia fechar
Ainda na mesma manhã, um lavador de carros de Braga, com 45 anos, disse que uma mulher lhe telefonou a dizer que o conhecia e que tinha uma loja no Porto que ia fechar e que lhe queria oferecer roupa.
Ele foi ao seu encontro e foram tomar uma bebida. Depois, ela ofereceu-se para fazer "uma festa" em sua casa. Ao pagar, com a desculpa de que estava a dar erro, teve de inserir o código por três vezes.
"Esquece o papel e vamos para minha casa"
Quando saiu o talão, Maria pegou nele, meteu-o no bolso e disse: "Esquece o papel e vamos para minha casa". O lavador de carros saiu e ficou à espera dela. Como ela não aparecia, ele pegou no carro e foi à primeira caixa multibanco. Viu que tinha ficado sem 1048 euros divididos em três pagamentos. Ainda ligou à "Maria" mas o telemóvel já não dava sinal.
