
Suspeitos aproveitavam-se de quem queria trespassar cafés, papelarias ou restaurantes
Miguel Sousa / Arquivo Global Imagens
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) terá sido lesada em mais de três milhões de euros através de um esquema que consistia em fazer apostas em todos os jogos sociais, sobretudo no Placard, sem as pagar e depois levantar os eventuais prémios.
Segundo o jornal "Público", que avança a notícia esta segunda-feira, os suspeitos aproveitavam-se de pessoas que manifestavam interesse em trespassar os seus cafés, papelarias ou restaurantes e que eram mediadores autorizados.
Na prática, segundo aquele diário, o esquema passava por adquirir os trespasses e depois, quando já controlavam os estabelecimentos e na posse dos códigos do sistema de apostas, aproveitavam para apostar milhões de euros sem pagar em todos os jogos, a maioria no Placard. Depois das apostas feitas, fechavam os estabelecimentos e desapareciam, o que obrigava a SCML a pedir a insolvência das sociedades que geriam os espaços, mas já sem sucesso.
Um dos três casos que estão ainda em investigação ocorreu entre 9 e 12 de fevereiro de 2020. Tal como o JN noticiou na altura, alguém apostou dois milhões de euros no Placard num estabelecimento na antiga freguesia de Famões, no concelho de Odivelas, fechado ao público.
Perante a deteção de um "volume anómalo de apostas" nesses quatro dias, "o Departamento de Jogos da Santa Casa acionou de imediato todos os procedimentos e mecanismos necessários, incluindo a suspensão cautelar do terminal em causa". No entanto, já nada havia a fazer: a dívida ascendia a 1,9 milhões de euros.
Os outros dois casos aconteceram igualmente em 2020, na zona do Porto. Num restaurante em Vila Nova de Gaia, o calote foi de quase 400 mil euros. Já numa papelaria em Leça do Balio, a Santa Casa ficou sem mais de um milhão de euros. Nestes dois casos, os trespasses foram adquiridos por cidadãos chineses que desapareceram depois de apostar.
O "Público" conta que, para já, não se sabe se há relação entre estas três situações. Apenas que nos dois casos que ocorreram no Norte do País, um dos suspeitos envolvidos na aquisição do trespasse do restaurante e a suspeita que assumiu a gerência da papelaria apresentaram moradas em Árvore, uma freguesia de Vila do Conde.
Ao diário, a Santa Casa não quis fazer comentários, alegando não querer prejudicar a investigação. No entanto, esclareceu que, após estes episódios, foram implementadas medidas no sentido de reforçar os mecanismos para evitar burlas ou fraudes. Uma dessas passou por estabelecer um limite diário de vendas Placard por estabelecimento, fixado em 25 mil euros, para a generalidade dos mediadores.

