
Português terá enviado email para empresa a trocar a conta bancária para pagamento
Arquivo Global Imagens
Português preso no Brasil é suspeito de lucrar 550 mil euros. Crime foi cometido na Bélgica, que já pediu extradição.
Um português, de 37 anos, é suspeito de ter burlado, em 550 mil euros, uma companhia de aluguer de aviões e fugido para o Brasil. Marco Paulo Marques, natural de Lisboa, terá conseguido enganar a empresa, da Indonésia, com um email falso, mas foi detido, no início deste ano, na sequência da emissão de um mandado de detenção internacional. Continua preso em solo brasileiro, à espera de ser extraditado para a Bélgica, onde o crime foi praticado e onde será julgado pelos crimes de fraude, burla e falsificação de documentos.
A empresa PT Ersa Eastern Aviation realizou um contrato de "leasing" com os chineses da Chai Lease Internacional Financial Services para a compra de um avião. Comprometeu-se a pagar 550 mil euros até 13 de setembro de 2019, mas, a três dias do fim do prazo, recebeu um email a pedir que a liquidação do mais de meio milhão de euros fosse antecipada. E ninguém reparou na subtil troca de duas letras no endereço eletrónico do remetente (chattychuang@ chialease.com.tw em vez do verdadeiro, chattychuang@ chailease.com.tw).
A comunicação eletrónica explicava que a conta bancária da empresa chinesa, na qual tinha de ser liquidado o leasing, estava temporariamente bloqueada, devido a um suposto pagamento efetuado com um cheque falso. O mesmo email acrescentava que os 550 mil euros deveriam ser transferidos para uma conta noutro banco, com sede na capital belga, Bruxelas.
Portugal revela paradeiro
Os responsáveis da PT Ersa Eastern Aviation confiaram nas indicações e transferiram o dinheiro para a conta indicada. A burla só foi descoberta quando, terminado o prazo acordado, a financeira chinesa exigiu o pagamento do avião.
A investigação que se seguiu demonstrou que não tinha sido a Chai Lease Internacional Financial Services a pedir a antecipação do pagamento do valor estipulado no contrato e a indicar a nova conta bancária para o depósito do montante superior a meio milhão de euros.
As autoridades policiais apuraram, também, que a maioria dos 550 mil euros enviados para a Bélgica foram, logo de seguida, transferidos para contas bancárias em Portugal, em nome de Marco Paulo Marques.
Mas, nesta altura, o português, que chegou a residir em Bruxelas, já tinha abandonado a Bélgica e estava desaparecido. Foi, então, emitido um mandado de detenção internacional.
O paradeiro de Marco Paulo Marques foi descoberto em dezembro do ano passado, após este se apresentar no consulado de Portugal em São Paulo, no Brasil, para resolver questões relacionadas com o passaporte. Já em janeiro deste ano, as autoridades portuguesas informaram as congéneres belgas das movimentações do fugitivo e, de imediato, foi pedida a sua detenção.
Marco Marques foi preso no final de fevereiro e é numa prisão brasileira que continua à espera de ser extraditado para a Bélgica.
RECURSO
Família brasileira não justifica libertação
Marco Paulo Marques é casado com uma brasileira, pai de uma criança luso-brasileira e trabalhava numa empresa de frutas do Paraná, no Brasil, quando foi detido. Alegou, aliás, que tinha "residência fixa e permanente no Brasil, bem como emprego fixo e familiares" neste país para tentar ser libertado e evitar a extradição. No pedido efetuado no Ministério Público brasileiro, Marco Marques alegou que "não estava em situação de fuga, porquanto não tinha conhecimento das acusações imputadas pelas autoridades belgas" e que "há relevante dúvida quanto à autoria dos crimes que lhe são imputados". No mesmo documento, defende, ainda, que "a situação precária do seu visto para a permanência no Brasil não autoriza a sua prisão" e, por fim, que a pandemia da covid-19 justifica a sua libertação, "devido ao alto risco de infeção" na cadeia. Em 9 de agosto, o vice-procurador-geral da República brasileiro, Humberto de Medeiros, recusou os argumentos apresentados e manteve o português preso.
PORMENORES
Sem esclarecimentos
O JN contactou o advogado de Marco Paulo Marques e a Procuradoria-Geral da República do Brasil. Mas nem um, nem os outros prestaram os esclarecimentos solicitados.
67.500 euros na conta
Os 550 mil euros não foram transferidos, na totalidade, para as contas portuguesas em nome de Marco Paulo Marques. 67.500 euros foram encontrados pelas autoridades na conta da Bélgica para a qual foi enviado o dinheiro relativo ao leasing.
Extradição requerida
A embaixada da Bélgica no Brasil já requereu oficialmente a extradição do português.
