Operação Weka

Combate ao tráfico de seres humanos mobilizou cem inspetores do SEF

Combate ao tráfico de seres humanos mobilizou cem inspetores do SEF

Operação internacional permitiu, em seis dias, resgatar quase 500 vítimas e efetuar 195 detenções. Portugal continua a ser usado por redes criminosas

Uma operação coordenada pela Interpol permitiu, entre 28 de março e 2 de abril, resgatar perto de 500 vítimas de tráficos de seres humanos, incluindo crianças, e identificar 760 migrantes ilegais. Foram ainda detidas 195 pessoas, 88 das quais por tráfico de seres humanos e 63 por imigração ilegal. Outras detenções foram justificadas com crimes relacionados com furto, tráfico de droga e falsificação de documentos.

Foi precisamente este último crime que levou a que um homem fosse detido no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. O indivíduo estava a tentar usar um cartão de cidadão dado como roubado em França, em agosto do ano passado, e que constava do sistema de alertas da Interpol. O documento roubado foi sinalizado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que participou na operação Weka com cem inspetores, no controlo dos postos de fronteiras portugueses. Em apenas seis dias, os inspetores do SEF fiscalizaram cerca de 130 mil passageiros, detetaram 78 medidas cautelares e deram cumprimento a seis mandados de captura.

Casamentos de conveniência com portugueses

Além de Portugal, a operação internacional envolveu outros 23 países, alguns de língua oficial portuguesa, como Angola, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Segundo a Interpol, a troca de informações entre as autoridades de todos os países possibilitou a identificação de locais de origem, trânsito e destino do tráfico de pessoas e da imigração ilegal. Permitiu ainda, em alguns casos, avançar com investigações e desmantelar grupos que se dedicam à criminalidade organizada.

A última edição do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) já destacava o facto da "exploração laboral continuar a ser um fenómeno presente em Portugal". "Trabalhadores, maioritariamente nacionais da Roménia, Moldávia, Paquistão, Nepal e Índia, foram recrutados para o trabalho em campanhas sazonais, como a apanha da azeitona, castanha, frutos ou produtos hortícolas, sendo transportados para as explorações onde passam a trabalhar e a residir", descrevia o documento.

O RASI sinalizava também uma "rede organizada que angariava cidadãos portugueses para celebrarem casamentos de conveniência com indivíduos de nacionalidade nigeriana e uma rede transnacional de auxílio à imigração ilegal e falsificação/contrafação de documentos, com ramificações no Brasil, Portugal, Canadá, EUA, Reino Unido, Holanda e Luxemburgo". "Nesta investigação verificou-se uma evolução e modificação do modus operandi. A documentação fraudulenta era emitida com base em certidões de nascimento ou de casamento de alegados netos/bisnetos. Permitiu sinalizar casos de falsa identidade e de usurpação de identidade e identificar o envolvimento de 12 cidadãos brasileiros e de uma cidadã nacional", lia-se.

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Fugiu a casamento forçado e foi alvo de abusos sexuais

Para a Interpol, a "operação Weka demonstrou, mais uma vez, a estreita ligação entre a imigração ilegal e o tráfico de seres humanos, particularmente numa crise de saúde global, quando os mais vulneráveis estão desesperados para escapar às dificuldades e as redes criminosas estão apenas desejosas de dar lucro". "Estas vítimas não podiam simplesmente afastar-se da situação horrível em que se encontravam e o sofrimento que suportaram. É por isso que o trabalho da Interpol não pára aqui. Continuaremos a ajudar os países a desemaranhar os problemas sensíveis e casos complexos, que, sem dúvida, irão gerar mais detenções nos meses vindouros", referiu o secretário-geral da Interpol, Jürgen Stock.

Um desses casos complexos envolveu uma rapariga congolesa, de 15 anos, que fugiu de um casamento forçado com a 'ajuda' de contrabandistas. Contudo, durante a viagem, a adolescente sofreu abusos sexuais até ser identificada e resgatada na Tunísia. As autoridades tentam ainda apurar se também foi explorada sexualmente.

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