Símbolos

Como o sinal "OK" assombrou a manifestação dos polícias em Portugal

Como o sinal "OK" assombrou a manifestação dos polícias em Portugal

Se a manifestação dos sindicatos da GNR e da PSP desta quinta-feira foi encarada como pacífica, nas redes sociais o evento não foi visto de igual forma. Um gesto feito por vários agentes lançou o debate e a polémica sobre símbolos de ódio associados a extremismos políticos.

"Tolerância Zero". Foi este o lema adotado pelos sindicatos da GNR e PSP que convocaram a greve de 21 de novembro. Se o desfile desde a Praça Marquês de Pombal até à escadaria da Assembleia da República ocorreu de forma pacífica, os ânimos exaltaram-se nas redes sociais, especialmente com os manifestantes associados ao Movimento Zero, formado também ele a partir da Internet.

Durante a tarde de quinta-feira, centenas de polícias fizeram o sinal de "OK" em direção à casa da democracia. O que muitos encararam como uma simbologia da aparente apatia do poder político face às preocupações desta classe profissional, outros associaram o gesto à extrema-direita, mais precisamente à supremacia branca.

Ouvido pelo JN, um oficial a prestar serviço no Grande Porto e que estava presente na manifestação, envergando a camisola do Movimento Zero, recusou a conotação política e social extrema e referiu que o gesto servia somente para assinalar "OK" e "zero" no sentido de "não se fazer nada" pelas preocupações e reivindicações das forças de segurança portuguesas.

Quem faz o gesto pela primeira vez, não o quer associar à "alt-right"

Madalena Oliveira, docente de Semiótica, Jornalismo e Comunicação e Linguagens na Universidade do Minho, explicava num artigo publicado em outubro pelo JN, que "quem faz [o gesto] pela primeira vez não terá a intenção de o relacionar com a extrema-direita".

A apropriação de gestos culturalmente aceites por grupos extremistas não é caso novo. Tornou-se mais sério quando determinadas figuras o utilizaram publicamente e de forma, por vezes, exaustiva nas redes sociais. Um dos casos foi o homem acusado da morte de 39 pessoas numa mesquita na Nova Zelândia que fez o gesto "OK" durante uma audiência do tribunal.

Também Marine Le Pen foi "apanhada" na trama. Em maio, a líder da Frente Nacional (partido conservador e de extrema-direita francês) foi apanhada numa selfie a fazer o gesto "OK" com um dos líderes do partido estónio de extrema-direita EKRE.

Não faltaram associações nas redes sociais ao símbolo da supremacia branca. Marine Le Pen pediu a Ruuben Kaalep, que estava na imagem, para que retirasse a fotografia do Facebook.

À Agência France Press, a política francesa esclareceu que o gesto significava apenas "OK" para ela. "Eu nunca tinha ouvido falar do segundo significado desse gesto trivial", acrescentou. Embora a fotografia tenha sido retirada das redes sociais do estónio, a imagem ficou eternizada na Internet até hoje.

O gesto "OK" pode enganar os jornalistas

Para a professora da Universidade do Minho, ouvida em outubro pelo JN, não há nada no gesto que nos remeta para uma ideologia de extrema-direita. "Estas conotações são construídas socialmente e culturalmente. O contexto é um aspeto decisivo para as conotações que atribuímos", explicou.

Porém, se alguns usam o gesto sem noção do segundo significado que este tem, o mesmo pode não ser tão ingénuo em outros eventos ou situação. De acordo com o jornal britânico "The Guardian", o sinal "OK" pode estar a ser capitalizado para enganar os meios de comunicação social e assim chegar mais eficazmente à opinião pública.

"Os repórteres nem sempre percebem que os trolls [pessoas que difamam e destabilizam na Internet] procuram atenção dos média - quando veem que há algo que os média captam, eles vão ganhar com isso", explica Joah Donovan, especialista em manipulação dos média, citado pelo "The Guardian".

Os simples gestos que se tornam virais ou populares podem ser uma gota de combustível para os grupos organizados. No caso do gesto "OK", a forma dos dedos assemelha-se a "W" e a um "P", ou seja, "White Power", que em português é traduzido para "supremacia branca".

A associação remete para a "alt-right", a direita alternativa, que nasceu nos Estados Unidos, e enaltece ideias como o racismo, o nazismo, a xenofobia e o antissemitismo.

O gesto de "OK" tornou-se tão mal amado e polémico que a Liga Anti-Difamação dos Estados Unidos já o incluiu numa lista de símbolos de ódio. De inofensivo tornou-se perigoso, numa questão de segundos e de páginas de Internet.

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