
CARLOS SANTOS / LUSA
A quantidade de cocaína apreendida em Portugal tem aumentado desde 2016, ano em que as autoridades recuperaram cerca de uma tonelada desta droga. No ano seguinte, o valor subiu para mais do dobro e, em 2018, ultrapassou as cinco toneladas. Já nos primeiros dois meses deste ano foram aprendidas 3,6 toneladas só pela Polícia Judiciária (PJ).
Ao JN, o diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes (UNCTE), Artur Vaz, explica estes números com o aumento de produção de cocaína na Colômbia, Bolívia e Peru e com o facto de Portugal ser uma das portas de entrada desta droga na Europa [ver entrevista]. O mesmo sustenta o diretor do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), João Goulão, que realça, contudo, a "estabilidade" das estatísticas que definem o panorama do consumo de estupefacientes em Portugal. "Este aumento da quantidade de cocaína apreendida corresponde a um aumento da eficácia das autoridades que, desde a entrada em vigor da lei da descriminalização do consumo de drogas, têm concentrado a atenção nas principais rotas do tráfico", defende.
Menor preocupação
O relatório de 2017 denominado "Combate ao tráfico de estupefacientes em Portugal", elaborado pela PJ, já destacava o "significativo aumento das quantidades apreendidas pela PJ e Agência Tributária" relativamente ao ano anterior, ainda que, no mesmo período comparativo, se tenha registado "a descida do número de apreensões". Feitas as contas, em 2016 foi recuperada menos de uma tonelada em 1132 apreensões, enquanto que em 2017 as autoridades concretizaram 818 operações nas quais apreenderam mais de 2,6 toneladas.
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Dados fornecidos pela PJ ao JN confirmam a tendência de crescimento em 2018, uma vez que apenas a Judiciária apreendeu, nos 12 meses do ano passado, mais de cinco toneladas de cocaína. Quantidade que poderá ser facilmente batida este ano, visto que, em apenas dois meses, foram apreendidas 3,6 toneladas de uma droga que tem um preço médio de 44 euros o grama.
"Ao longo dos últimos anos, o número de apreensões de cocaína tem vindo a aumentar paulatinamente e temos tido apreensões muito relevantes, a última das quais de 3,3 toneladas, que é um número muito elevado", salienta Artur Vaz.
João Goulão suspeita que muita desta droga "não será para o mercado interno". "Portugal, assim como Espanha, tem uma costa muito exposta. E depois há o tradicional intercâmbio com países da América Latina. São portas de entrada para a Europa", justifica.
Segundo o diretor do SICAD, o aumento do tráfico não significa maior consumo - a não ser no caso da canábis - mesmo num país onde a inquietação com a dependência de estupefacientes já foi mais relevante. "As questões relacionadas com a droga já foram a primeira preocupação dos portugueses, mas hoje está na 13.ª ou na 14.ª posição. E isto tem reflexo na definição das políticas de combate ao fenómeno. Apesar de tudo, temos um sistema sólido, dos melhores do mundo", frisa.
Europol confirma
A realidade portuguesa está em linha com o resto da Europa. No último relatório "Serious and Organised Crime Threat Assessmet", a Europol revela que, "nos últimos dois anos, a produção de cocaína na Colômbia cresceu significativamente". "E este crescimento terá impacto na União Europeia, sob a forma de um intenso tráfico, assim como uma grande disponibilidade de cocaína nos mercados de droga dos estados membros", lê-se.
