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Escuta a major da Polícia Judiciária Militar envolve ministro da Defesa

Escuta a major da Polícia Judiciária Militar envolve ministro da Defesa

Azeredo acusado de saber de encenação das armas de Tancos. Advogado garante que só os segredos de justiça e de Estado seguram o governante.

Numa escuta telefónica entre os majores da Polícia Judiciária Militar (PJM) Pinto da Costa e Vasco Brazão, intercetada aquando da investigação da Polícia Judiciária civil, o ex-porta voz da PJM garantiu ao colega ter entregado um memorando ao chefe de gabinete do ministro da Defesa. O oficial, entretanto colocado em prisão domiciliária, assegurou a mesma tese no interrogatório judicial: o ministro foi informado da "encenação" cerca de mês e meio depois da recuperação do armamento furtado em Tancos. Azeredo Lopes já veio a público negar categoricamente ter tido conhecimento de qualquer "encobrimento".

De acordo com informações recolhidas pelo JN, a escuta telefónica foi intercetada numa altura em que Vasco Brazão já sabia que podia estar sob investigação e monitorização da PJ, uma vez que, tal como o JN ontem noticiou, dois elementos da PJM tinham detetado, em janeiro deste ano, inspetores da PJ a vigiá-los, em Loulé, e disso informaram imediatamente a hierarquia militar. Fica a dúvida sobre o motivo pelo qual "arriscou" referir ao telefone tamanha revelação que pode vir a ter impacto político.

Segredo de Estado

"A única coisa que segura o ministro é o segredo de justiça e o segredo de Estado", disse ao JN, João Magalhães, advogado do major Pinto da Costa, um dos detidos da operação Húbris (ler página seguinte).

Na escuta, confidenciou ao colega ter-se deslocado ao ministério da Defesa e entregado um memorando com todos os pormenores da operação de recuperação da armas.

O ex-coordenador de investigação criminal terá sido confrontado com a escuta e manteve a versão. Ao que apurámos, garantiu ao juiz de instrução criminal ter deixado o memorando nas mãos do então chefe de gabinete do ministro, general Martins Pereira, que deixou as funções em janeiro deste ano. Não conseguiu garantir que o documento tenha sido entregue ao ministro, mas ficou convencido disso.

O JN apurou não existir no ministério um registo de entrada do memorando, onde era admitido o "encobrimento" da recuperação das armas. Também o computador em que foi escrito o documento terá sido formatado.

Martins Pereira reage

Ontem, Azeredo Lopes foi perentório a afastar o cenário: "Queria dizer categoricamente que é totalmente falso que eu tenha tido conhecimento de qualquer encobrimento neste processo", disse.

Mas não saiu em defesa do seu, na altura, chefe de gabinete. Um dia antes de a PJ iniciar ações de vigilância sobre a PJM e da GNR, Martins Pereira saiu do ministério para o Estado-Maior General das Forças Armadas.

Depois de um dia em silêncio, ao início da noite, à Lusa, Martins Pereira confirmou ter recebido Vasco Brazão e Luís Vieira (então diretor da PJM), em novembro. Não revelou o teor da reunião, mas negou que lhe tenha sido dada informação que permitisse "descortinar qualquer facto que indiciasse qualquer irregularidade ou indicação de encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos".

Martins Pereira disse ainda que já fez saber ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal estar disponível para ser ouvido.

Junho 2017
Dia 28

Furtado material de guerra dos paióis de Tancos. No dia seguinte, Azeredo Lopes admite que a situação é grave: "Não foi roubada uma pistola, não foram roubadas duas, foram roubadas granadas", disse.

Julho 2017
Dia 1

O Chefe de Estado-Maior do Exército, Rovisco Duarte, exonera cinco comandantes. Seriam readmitidos após duas semanas. No dia seguinte, o jornal El Español revela lista do material furtado.

Dia 4

Em Tancos, o Presidente exige apuramento de "tudo, de alto a baixo, até ao fim, doa a quem doer". O Ministério Público abre um inquérito e a investigação é entregue à PJ, com a colaboração da PJM.

Dia 8

Primeira demissão no caso: o tenente-general Antunes Calçada, comandante de Pessoal do Exército, bate a porta em divergência com Rovisco Duarte.

Dia 27

O Serviço de Informações de Segurança (SIS) assume ter sabido do furto pela comunicação social.

Setembro 2017
Dia 4

Presidente da República declara-se preocupado com demora no inquérito. "Estou atento, acompanho o que se passa, e preocupa-me o tempo", afirmou.

Dia 10

Ministro da Defesa diz que "no limite, pode não ter havido furto nenhum." Em uníssono, PCP, Bloco de Esquerda, PSD e CDS exigiram esclarecimentos. Os partidos da Direita pedem a demissão de Azeredo Lopes.

Outubro 2017
Dia 18

PJM anuncia a recuperação, na Chamusca, do material de guerra desaparecido, com a colaboração da GNR de Loulé. São recuperadas armas que não constavam da lista do material furtado - Exército justifica com falhas no inventário. Esta operação terá sido uma encenação para ilibar os autores do furto, à margem do MP.

Dezembro 2017

O general António Martins Pereira, chefe de gabinete de Azeredo Lopes, terá recebido um dossiê sobre a encenação da recuperação das armas. Quem o assegura é Vasco Brazão, o major da PJM que viria a ser detido na operação Húbris.

Janeiro 2018
Dia 4

O Exército pune quatro militares, incluindo um sargento que não mandou fazer rondas, a quem foi aplicada a pena de proibição de saída durante 15 dias.

Dia 10

Martins Pereira foi substituído por Maria João Mendes na chefia do gabinete de Azeredo Lopes.

Dia 11

PJ começa a vigiar os elementos da PJM e da GNR de Loulé que participaram na operação encenada de recuperação das armas.

Março 2018
Dia 21

Com quase um mês de atraso, o Ministério da Defesa entregou ao Parlamento um relatório que assume duas décadas de falhas na segurança das instalações de Tancos.

Junho 2018

"A memória não prescreve", dispara Marcelo Rebelo de Sousa.

Julho 2018
Dia 13

Ao contrário do garantido pelo Exército e pela Defesa, nem todo o material roubado foi devolvido, diz o Ministério Público.

Dia 31

No Parlamento, o Chefe do Estado-Maior do Exército recusou entregar a lista de material recuperado, por estar em segredo de justiça.

Setembro 2018
Dia 12

Após mais uma audição ao ministro da Defesa, o CDS mantém pedido de inquérito parlamentar, enquanto o PSD admite chamar António Costa ao Parlamento.

Dia 25

Operação Húbris. A Polícia Judiciária lançou a operação que deteve o ex-líder da PJM e outros três elementos desta polícia, três elementos do Núcleo de Investigação Criminal da GNR e um civil, ex-militar suspeito de ter participado no furto. No mesmo dia, o CDS anuncia a proposta de comissão parlamentar de inquérito. Nos dias seguintes, o apoio do PSD e do PS garantiriam a sua viabilização.

Outubro 2018
Dia 2

O ex-porta voz da PJM, major Vasco Brazão, regressa a Portugal sob escolta e é detido à chegada ao aeroporto. Interrogado, ficou em prisão domiciliária, mas sem vigilância eletrónica.

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