
Direção da Cooperativa Rumo, do Barreiro, despediu funcionários e participou caso às autoridades
Carlos Costa/Global Imagens
Jovens institucionalizados na Casa de Acolhimento Residencial da Cooperativa Rumo, no Barreiro, terão sido submetidos durante anos a espancamentos, maus-tratos e insultos pela ex-diretora técnica e por um psicólogo.
Os rapazes eram sovados por se portarem mal na escola, as raparigas insultadas quando chegavam tarde ao lar e, durante quatro anos, nenhum recebeu assistência médica sequer para vacinas obrigatórias. Todas tinham sido retiradas às suas famílias, devido a situações de risco.
De acordo com um inquérito interno que resultou no despedimento dos dois funcionários, a que o JN teve acesso, um rapaz foi levado na carrinha da Rumo para uma zona erma no parque industrial do Barreiro e foi sovado pelos responsáveis. O mesmo jovem foi, a par de outro, agredido com cinto dentro da casa, no designado "quarto do adulto". As raparigas eram insultadas. "Isto não é um bordel de vacas", chegou a dizer o psicólogo.
Os maus-tratos a pelo menos quatro jovens decorreram até que uma funcionária denunciou o que se passava à Direção da cooperativa. Os dois suspeitos foram suspensos no início de janeiro de 2018 e foi aberto um inquérito disciplinar. Terminou em maio, com despedimento por justa causa.
Apesar do afastamento, o terror não parou. A diretora e o psicólogo perseguiram os jovens no caminho entre escola e lar, insultando e ameaçando. A investigação interna chegou às datas das agressões não através das vítimas - que não conseguiram precisá-las -, mas pelos dois suspeitos que, nas defesas, identificaram datas.
Direção lamenta
Ao JN, Rute Pires, presidente da Cooperativa Rumo, lamenta os maus-tratos a que os jovens foram sujeitos por pessoas que eram confiança da Direção. "Tendo em conta que estes jovens vêm para as nossas mãos porque sofreram no passado, saber que ainda foram submetidos a isto é muito triste", acrescenta.
A única suspeita surgiu em novembro de 2016, quando a Segurança Social alertou para a melhoria das condições na casa. "Como confiávamos inteiramente na equipa coordenadora, não conseguimos perceber o que se passava realmente. Só durante a investigação interna é que vimos que os jovens nem sequer iam às consultas médicas". A presidente assegura que hoje estão bem.
O Tribunal de Trabalho do Barreiro começa agora a julgar os processos intentados pelos trabalhadores contra os despedimentos por justa causa. "Os jovens que são testemunhas estão ansiosos porque não querem confrontar no tribunal os seus agressores", conta Rute Pires ao JN.
Vítimas
4 jovens estão identificados como vítimas no inquérito interno instaurado pela Cooperativa Rumo, no Barreiro, sobre o funcionamento do Lar de Acolhimento Residencial. Mas há suspeitas de que os maus-tratos incidiam sobre mais jovens institucionalizados.
Providência cautelar
A ex-diretora-técnica intentou uma providência cautelar contra o despedimento por justa causa até decisão judicial. Foi transferida para outra valência da cooperativa Rumo. Está de baixa médica desde novembro do ano passado. O ex-psicólogo foi afastado.
Arguidos em inquérito na Procuradoria
A Procuradoria-Geral da República confirmou ao JN ter sido aberto um inquérito, ainda sob investigação no Ministério Público, por maus-tratos. Foram já constituídos dois arguidos. O processo-crime foi instaurado após denúncia da Cooperativa Rumo, em janeiro de 2018. As conclusões do relatório, de 30 de maio, foram encaminhadas para a justiça, bem como as queixas de perseguição aos jovens.
PORMENORES
Suspeitos tentam descredibilizar vítimas
O JN teve acesso ao inquérito disciplinar ordenado pela Cooperativa Rumo. A defesa dos trabalhadores insiste na falta de credibilidade dos jovens, devido ao seu passado problemático. Mas, em conclusão, o relatório critica a defesa dos trabalhadores, dizendo estar assente no "truque, evasão e mentira". Isto porque - lê-se - os visados atiram para todos os lados: "a Direção que os persegue, os jovens que gizaram um plano para os acusar falsamente, as colegas de trabalho que integraram esse plano, e finalmente, o executor do plano, o instrutor do processo".
Segurança Social não apurou agressões
A Segurança Social acompanhou a Casa de Acolhimento da Rumo, mas não identificou qualquer situação de maus-tratos. Em esclarecimento ao JN, o organismo refere que "têm sido realizadas várias visitas de acompanhamento técnico e de acompanhamento dos processos dos jovens acolhidos, não tendo sido identificadas situações que configurassem maus-tratos". Ainda assim, foi recomendado à instituição que melhorasse "as condições físicas da resposta e cumprisse, integralmente, os rácios de pessoal para a mesma".
Pedopsiquiatra deixou de acompanhar jovens
Por razões não apuradas, os 14 jovens institucionalizados na Rumo deixaram de ter apoio de pedopsiquiatria no Hospital de São Bernardo, Setúbal, quando os suspeitos de agressão foram afastados. Conforme o JN apurou, e a Rumo confirmou, a pedopsiquiatra que os acompanhava recusou continuar a trabalhar com os jovens, que passaram a receber o apoio no Hospital Garcia de Orta.
