Violência doméstica

PSP, procuradores e médicos não evitaram que Angelina fosse imolada pelo ex-companheiro

PSP, procuradores e médicos não evitaram que Angelina fosse imolada pelo ex-companheiro

Autoridades demoraram demasiado tempo a atuar e não cumpriram protocolos estabelecidos. Mulher de 42 anos foi várias vezes agredida ao longo de três meses.

A PSP, o Ministério Público (MP) e os técnicos do Serviço Nacional de Saúde "não utilizaram os mecanismos de proteção, nem desencadearam os procedimentos para a aplicação de medidas de coação" que evitassem que Angelina Rodrigues fosse queimada até à morte pelo ex-companheiro, João Faustino.

A conclusão é da Equipa de Análise Retrospetiva de Homicídios em Violência Doméstica (EARVD), que defende ainda que a filha da vítima, de sete anos, "nunca teve apoio das entidades" que estiveram em contacto com este caso de violência doméstica. "O seu sofrimento foi ignorado", sustentam os técnicos.

O caso remonta a abril de 2016, quando a operária fabril e o pescador, residentes em Peniche, iniciaram uma relação amorosa, que se estendeu por oito meses. A separação aconteceu em dezembro seguinte e foi aceite por João Faustino. Porém, em abril de 2017, o pescador começou a perseguir e a agredir a antiga namorada. Queria retomar um relacionamento que Angelina Rodrigues dava há muito como concluído.

A vítima apresentou sucessivas queixas na PSP e foi tratada duas vezes no hospital. O caso também chegou ao conhecimento do Ministério Público, mas nenhuma das entidades, alega a EARVD, agiu de forma eficiente e no tempo próprio.

Polícias, procuradores, médicos e enfermeiros não evitaram, desta forma, que Angelina Rodrigues fosse surpreendida pelo ex-companheiro à saída da fábrica onde trabalhava, em setembro de 2017. Foi aí que João Faustino apareceu com um martelo na mão, uma faca na outra, uma mochila às costas e partiu o vidro do carro de Angelina à marretada. Em seguida, tentou esfaquear a ex-namorada e atirou um bidão cheio de combustível para o interior da viatura.

A operária fabril ainda conseguiu fugir do automóvel, mas foi apanhada 150 metros depois, em plena rua da cidade de Peniche. Aqui, foi "selvaticamente" agredida com murros e pontapés até cair ao solo. Com a vítima sem reação, João Faustino regou-se com o combustível que restava no bidão e imolou-se com um isqueiro, provocando uma explosão. Posteriormente, atirou-se para cima de Angelina e agarrou-a. Esta, como também estava encharcada de gasolina, começou a arder.

Na sequência das graves queimaduras, o pescador morreu no dia seguinte ao ataque que perpetrou. Angelina ainda resistiu quatro meses, mas os ferimentos que sofreu revelaram-se, de igual forma, fatais.