Cadeias

"Não via a hora de abraçar o meu filho". Presos estão a ser libertados aos poucos

"Não via a hora de abraçar o meu filho". Presos estão a ser libertados aos poucos

O táxi de Ermesinde quase entra pela cadeia de Custóias dentro. Do veículo, saem duas mulheres, que não escondem a ansiedade.

"Já há quase um mês e meio que não vemos o David. Hoje [domingo] de manhã, ligou-nos a dizer que ia sair e apanhamos logo um táxi para o vir buscar. Tenho o coração aos saltos", refere Arlinda Lemos, acompanhada da nora, Ana Lemos, mãe e mulher, respetivamente, de um recluso libertado no domingo.

Nestas alturas, o tempo passa sempre mais devagar, mas a eternidade pouco mais durou do que uma hora, até David Lemos, de 40 anos, franquear as portas do Estabelecimento Prisional do Porto (EPP), acompanhado de André Fernandes, de 37, libertado ao mesmo tempo.

"Soubemos do que ia acontecer pelas notícias. Depois, foi esperar pela decisão do Tribunal de Execução de Penas. Lá dentro, há muita ansiedade e medo. E houve pessoal que não saiu ontem [anteontem] porque não tinha para onde ir. Estão lá dentro à espera que lhes arranjem quartos. Eu já ia sair em julho, mas mesmo assim isto é um misto de emoções que não se descrevem. E logo no domingo de Páscoa", afirmou David Lemos ao JN.

"Tanto tempo"

Ana Lemos pôde, finalmente, abraçar o marido e dizer ao filho, de dez anos, que o pai em breve estaria em casa. "Tínhamos muitas saudades. O meu filho, ainda mal tínhamos chegado aqui e já estava a perguntar: "Porque demora tanto tempo?"

André Fernandes, o amigo de David, não conseguira avisar ninguém. Usou o telemóvel de Arlinda Lemos para ligar à família. "Moro em Pedroso [Gaia] e eles já se puseram a caminho. Estava a metade de uma pena de dois anos e seis meses por tráfico de droga", conta, eufórico, mas realista. "Sei que tenho de me manter em casa, em quarentena, mas a verdade é que, na prisão, comíamos todos juntos. O que interessa agora é levar a vida direitinha. Nunca tinha estado preso e vou fazer tudo para me manter afastado daqui", confessou André Fernandes.

Na prisão de Braga, um dos seis reclusos libertados no fim de semana, que estava a dez meses de terminar a pena, disse ao JN que "deviam sair mais presos por coisas pequenas", defendendo a prisão dos violadores e dos pedófilos. Dos seis libertados, três estavam na cadeia por crimes estradais, dois por furtos e um por burlas.

Demasiada rapidez

A forma rápida como a lei foi redigida e posta em prática merece críticas do presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional, Jorge Alves. "Estamos conscientes dos riscos que toda a população prisional corre com a pandemia. Mas pôr os juízes a decidir durante um fim de semana trouxe problemas. Há reclusos que vivem longe do local onde cumprem pena. Com as restrições à circulação na Páscoa, como é que um familiar os pode ir buscar? Era preferível libertá-los a partir de terça-feira [amanhã]", criticou.

O sindicalista referiu o exemplo de um cidadão romeno, que cumpria pena na Cadeia de Izeda, Bragança, e que foi libertado anteontem. "Valeu-lhe um ex-recluso, que lhe ofereceu dormida", disse.

Outras Notícias