
Padre António Teixeira teve a seu cargo, entre outras, a paróquia do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa
Gerardo Santos / Global Imagens
Montante desviado de duas paróquias inclui transferências bancárias e será de quase 420 mil euros. Venda de arte sacra de uma das igrejas também sob suspeita.
Um padre acusado de ter usado dinheiro de esmolas e das contas bancárias de duas paróquias na Grande Lisboa para comprar, entre outros bens, 19 carros vai começar a ser julgado no dia 15 no Tribunal Central Criminal de Lisboa. António Teixeira é ainda suspeito de ter alienado, sem o conhecimento da Diocese, mais de 20 peças de arte sacra de uma das paróquias. Ao todo, ter-se-á apropriado, em cinco anos e meio, de quase 420 mil euros.
Contactado pelo JN, André Mendes, advogado do sacerdote, disse apenas que "a defesa do padre António" será feita no "local próprio": o julgamento. O pároco vai responder, no total, por dois crimes de abuso de confiança agravado, um de furto qualificado e um de branqueamento de capitais.
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Nem só em proveito próprio
Segundo a acusação do Ministério Público (MP), os atos terão sido praticados entre 2011 e 2017, período em que António Teixeira administrou as paróquias de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, Cascais (julho de 2011 a julho de 2015) e do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa (outubro de 2015 a janeiro 2017).
Em ambas terá, alegadamente, feito chegar centenas de milhares de euros à sua esfera particular, de duas formas: através de transferências bancárias com origem nas contas das fábricas das duas igrejas, por um lado, e de depósitos nas suas contas pessoais de esmolas dos fiéis, por outro. Neste caso, estarão em causa donativos em numerário no valor de 160 850 euros em Carcavelos e de 26 500 euros em Campo de Ourique.
No total, o sacerdote terá desviado quase 420 mil euros, cuja origem terá depois, na tese do MP, tentado esconder com a compra de 19 carros, de 2011 a 2017. Entre estes, estão 12 Volkswagen e três Mercedes. A quantia terá ainda sido gasta em "despesas genéricas": compras de supermercado, roupa, refeições, seguros, portagens, carregamentos de telemóvel e serviços de televisão e Internet.
O montante será, ainda assim, inferior ao do total de transferências que o padre terá efetuado. Em causa está o facto de uma parte ter, posteriormente, retornado à origem ou sido usado no pagamento de viagens a utentes do centro comunitário, em Carcavelos, e na recuperação da casa paroquial, em Campo de Ourique.
A necessidade de realizar obras na Igreja do Santo Condestável terá sido, de resto, o argumento de António Teixeira para alienar em antiquários de Lisboa mais de 20 peças de arte sacra propriedade daquela paróquia. Avaliadas globalmente em 131 600 euros, foi o seu desaparecimento - participado pelo pároco que o sucedeu no lugar - que deu origem ao inquérito. Os bens foram entretanto recuperados e devolvidos pela PJ, no final de 2018, à paróquia.
Pormenores
52 290 euros é quanto exigem de indemnização antiquários que, alheios aos crimes, comercializaram as peças que terão sido alienadas, sem autorização, pelo sacerdote. Os valores pedidos por cada um variam entre 13 250 euros e os 21 740 euros.
424 484 euros por danos patrimoniais são exigidos, no total, pelas fábricas das duas igrejas paroquiais alegadamente lesadas pelo padre. A maior fatia é pedida pela a de Nossa Senhora dos Remédios: mais de 258 mil euros.
Arte diversa
O catálogo de bens alienados inclui figuras, cálices, castiçais, custódias, crucifixos, toucheiros e, até, uma coroa. São de madeira, prata ou talha dourada.
Antiquários alheios
Segundo o processo, consultado pelo JN, as peças foram alienadas pelo padre António Teixeira e um intermediário em antiquários de Lisboa, alheios a qualquer ato ilícito. Foram obrigados a pedi-las de volta aos compradores.
Recebeu menos
O sacerdote terá reunido cerca de 45 mil euros com as vendas contabilizadas, apesar de as peças estarem avaliadas em 131 600 euros.
