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Sacerdote de Lisboa diz que há padres acusados de abusos sexuais no ativo

Sacerdote de Lisboa diz que há padres acusados de abusos sexuais no ativo

Quem denuncia casos à hierarquia é "posto de lado", assegura o padre, num testemunho inédito.

"Ainda hoje estão no ativo padres sobre quem recaem fortes suspeitas de abuso sexual de crianças ou jovens". A denúncia foi feita por um sacerdote da diocese de Lisboa que, em entrevista à RTP, quebrou o silêncio sobre os abusos sexuais na Igreja portuguesa.

O padre revelou que, desde 1997 até hoje, acompanha rapazes que foram abusados sexualmente por dois padres. Em 2020, um dos envolvidos nos abusos foi definitivamente afastado da Igreja. O outro continua a exercer.

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Entre as vítimas estão jovens escuteiros que o procuraram há mais de 20 anos para lhe contar os abusos que sofreram numa casa na zona Oeste de Lisboa. O relato dos abusos foi transmito ao Patriarca (D. António Ribeiro, na altura) que terá mudado o alegado agressor de paróquia.

Num testemunho inédito, o padre falou à RTP sobre pessoas dentro da igreja que, como ele, denunciaram casos de abuso sexual de menores à hierarquia, e foram postos de lado durante anos. O sacerdote testemunhou a favor dos jovens nos tribunais "civis e eclesiásticos".

Para incentivar as denúncias, várias personalidades da sociedade civil e da Igreja juntaram-se à Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica em Portugal numa campanha para "dar voz ao silêncio".

"Não podemos aceitar tanta indiferença e sofrimento, pelo que temos de fazer tudo para termos não só crianças como adultos mais felizes e com horizontes de mais dignidade", referem Manuela e António Ramalho Eanes, ex-presidente da República.

A Comissão desafiou um grupo de personalidades, das mais diversas áreas profissionais, sociais e contextos individuais, para que pudessem colaborar através da escrita de um pequeno texto ou até de uma frase sobre "o que diria a alguém adulto que, em criança possa ter sido abusado sexualmente, para finalmente dar voz ao seu silêncio?".

O padre José Manuel Pereira de Almeida, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, respondeu: "Não tenhas medo".

Eugénio Fonseca, presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado e antigo responsável nacional da Cáritas, pediu que as vítimas "rompam o silêncio que os oprime e falem às autoridades competentes, garantes da privacidade e da justiça".

Maria Dulce Rocha, presidente do Instituto de Apoio à Criança, sublinhou que "todas as vítimas têm o direito de falar do abuso que sofreram e que lhes provoca ainda dor e revolta".

Já com 360 denúncias formalmente recebidas, a Comissão encontra-se hoje com o Presidente da República.

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