Polícia Judiciária

Sem-abrigo explorado por casal caminhou 14 quilómetros para se libertar de trabalho escravo

Sem-abrigo explorado por casal caminhou 14 quilómetros para se libertar de trabalho escravo

A Polícia Judiciária do Porto deteve um casal, com 42 e 44 anos, residente em Vila Flor, que forçou um sem-abrigo a trabalhar na agricultura, sem receber salário, em Espanha e Portugal. A vítima, de 52 anos, teve de caminhar 14 quilómetros para procurar ajuda das autoridades e libertar-se do clã familiar, que já tinha angariado outra vítima para ser explorada.

De acordo com informações recolhidas pelo JN, a vítima foi abordada em julho de 2021 na cidade do Porto. O casal, residente em Vila Flor, aliciou o sem-abrigo com promessas de uma vida melhor. Davam-lhe trabalho na agricultura na zona de Almería, no sul de Espanha, com salário compatível com o nível de vida de lá, assim como alimentação e alojamento.

A vítima aceitou mas o prometido paraíso tornou-se num inferno. Após uma curta estadia em Vila Flor, retiraram-lhe os documentos e colocaram-no a trabalhar horas a fio em diversas quintas espanholas, com pequenas pausas para as refeições. O salário, que era pago pelos donos das explorações agrícolas diretamente ao casal, era sempre retido. Ao longo dos vários meses, a vítima nunca recebeu qualquer vencimento.

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"Naquele país, esteve instalado em locais precários e sem grandes condições de salubridade, privado dos seus documentos de identificação, sendo obrigado a trabalhar mediante ameaças e agressões físicas, sem nunca ter recebido qualquer valor pelo pagamento do trabalho prestado", adianta a PJ.

Quando o trabalho em Espanha terminou, a vítima foi novamente levada para Vila Flor, onde era alojada num palheiro, sem condições de habitabilidade. As condições levaram o "escravo" a querer libertar-se. Alegando querer tomar a vacina contra a covid-19, conseguiu a "autorização" do casal para sair da casa. Caminhou 14 quilómetros até ao posto da GNR de Vila Flor, tendo sido encaminhada para uma casa abrigo.

Uma investigação por crimes de tráfico de pessoas, sequestro e ofensa à integridade física foi aberta e a Polícia Judiciária do Porto reuniu prova suficiente para deter o casal e realizar buscas na residência de Vila Flor. Lá, também alojado no palheiro, os inspetores encontraram outro sem-abrigo, recém-chegado, que ainda não tinha sido colocado a trabalhar. Foi de imediato resgatado e encaminhado para serviços sociais.

O casal, que já tem antecedentes por crimes da mesma natureza, foi esta sexta-feira levado para o Tribunal de Vila Flor para o primeiro interrogatório judicial. Os dois arguidos ficaram com apresentações trissemanais às autoridades, a proibição de se ausentar do distrito de Bragança e de contactar a vítima.

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